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A joia escondida da Netflix: um filme delicado que quase ninguém viu

A família Hall vive com conforto e negocia obras de arte de alto valor, mas o casamento muda quando Debbie descobre a traição de Ron. Depois desse choque, a casa funciona por inércia: conversas ficam suspensas, cobranças são engolidas, decisões são empurradas. “Somos Todos Iguais” abre com esse ajuste forçado, em que tudo continua andando, só que sem confiança.

Os sonhos que atingem Debbie empurram a energia do casal para fora de casa. Ela busca um sentido novo e decide fazer trabalho voluntário em uma entidade que atende moradores de rua com alimentos, roupas e o mínimo de dignidade. Renée Zellweger segura a virada com firmeza prática: Debbie puxa Ron e os dois filhos adolescentes para o compromisso, e “Somos Todos Iguais” coloca a família no mesmo espaço, mesmo sem combinação prévia.

Trabalho voluntário e primeiras tentativas

No primeiro contato, Denver não facilita. Ele entra como alguém agressivo e potencialmente perigoso, e isso impõe um limite imediato para a aproximação: insistir pode ter custo, recuar interrompe a tentativa antes de começar. Debbie escolhe insistir porque acredita ter visto o homem em seus sonhos, e essa crença mantém os Hall ali quando a reação dele aponta para afastamento.

Ron entra no movimento sem entusiasmo e sem domínio do próprio papel. Greg Kinnear faz essa mudança com contenção: mesmo traindo, ele precisa aparecer, ouvir, acompanhar e responder ao que Debbie iniciou. O problema deixa de ser só conjugal e vira operacional, porque a presença de Denver exige que a família se posicione como grupo.

Quando Denver dá abertura, ele decide contar sua história para Ron, e o tamanho do compromisso muda na hora. Ele se descreve como órfão, fala de trabalho forçado para um fazendeiro ligado à Ku Klux Klan na Louisiana e lembra a passagem por uma prisão apresentada como das mais violentas do mundo. Ele ainda menciona crimes e atitudes capazes de afastar os Hall, e a conversa deixa Ron preso a uma dúvida simples e dura: seguir ali, ou cortar o contato.

Depois dessa conversa, Ron precisa escolher o que repassar para Debbie e aos filhos, porque a história inclui confissões que podem encerrar a aproximação de imediato. A cada nova ida ao voluntariado, a família volta ao mesmo ponto com mais informação e menos conforto: até onde ir com alguém descrito como perigoso e que admite atos que colocam tudo em questão. Debbie avança guiada pelos sonhos e pela vontade de mudar de vida; Ron avança tentando impedir que a insistência vire imprudência.

Museu e Denver como hóspede

Com o passado colocado na mesa, Debbie e Ron se alinham em torno de um objetivo concreto: ajudar Denver a transformar sua vida. A parceria não nasce de um acerto direto sobre a traição, e sim da soma de tarefas, visitas e combinados mínimos que dependem dos dois ao mesmo tempo. O passo seguinte pesa dentro de casa: Denver é levado como hóspede, e a diferença de condições deixa de ser comparação distante para virar convivência diária.

Ron leva Denver a um museu, e ali Denver reage à obra de Picasso “A Mulher Que Chora”. Ele comenta o rosto desfigurado e montado novamente, insistindo que a figura pode ser vista “de dentro para fora”. Djimon Hounsou dá ao momento uma presença firme, e o comentário tira Denver do lugar de alguém só “amparado”: ele lê, reage, devolve pensamento.

A desconfiança inicial — a de mais um relato de ricos privilegiados que ajudam para receber aplausos — continua presente porque o passado de Denver não permite adesão fácil. As confissões dele, incluindo crimes e atitudes, voltam a pesar quando a família decide insistir, receber e manter a aproximação, ainda mais depois de levá-lo como hóspede. O casal segue agindo com base no que ouviu e no que ainda não sabe.

O casamento começa a se recompor por causa desse trabalho em comum, e não por uma conversa definitiva sobre a traição. Cada tentativa de apoio a Denver exige decisão com informação incompleta e obriga Debbie e Ron a funcionarem como dupla enquanto ainda existe ressentimento entre eles. A escolha pendente segue prática e imediata: manter Denver por perto — inclusive dentro de casa — apesar do risco apontado desde o início, ou interromper a ajuda agora.

Filme:
Somos Todos Iguais

Diretor:

Michael Carney

Ano:
2017

Gênero:
Biografia/Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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