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A história real que virou o filme mais perturbador sobre possessão, na Netflix

A história real que virou o filme mais perturbador sobre possessão, na Netflix

“Livrai-nos do Mal” é um daqueles filmes que fingem ser apenas mais uma história de exorcismo, mas que, em silêncio, falam sobre algo mais profundo: o esgotamento moral e espiritual do homem contemporâneo. Sob a superfície de uma trama policial impregnada de sombras e salmos, o longa se revela uma meditação sobre a descrença, o medo e a falência da racionalidade como escudo contra o inominável. O policial interpretado por Eric Bana percorre as ruas sujas de Nova York com a convicção empedernida de que o mal é sempre humano e tangível, até que a realidade começa a lhe responder com grunhidos e olhos que não são deste mundo. O diretor Scott Derrickson, habituado a transitar entre o terror e o misticismo, conduz essa jornada como quem desce lentamente uma escada para o inconsciente coletivo, onde o crime deixa de ser um ato e passa a ser uma presença.

A potência do filme está justamente nesse trânsito entre o concreto e o metafísico. “Livrai-nos do Mal” recusa a segurança de um gênero puro: é um thriller policial que se contamina de religiosidade, um terror espiritual que se apoia na linguagem do realismo sujo. O espectador, assim como o protagonista, perde as garantias: o mal não é mais uma metáfora, é um fato. E o fato não é mais racionalizável. Derrickson filma com uma devoção quase expressionista, fazendo da escuridão uma matéria palpável. A chuva incessante, as sombras quebradas por lanternas, o ruído das sirenes, tudo compõe uma atmosfera de guerra santa entre o visível e o invisível. Há um eco distante de “O Exorcista” e de “Seven”, mas aqui o pecado não é apenas o do corpo: é o da dúvida. O que vemos é a lenta ruína de um homem que precisa escolher entre acreditar ou enlouquecer.

Há um mérito raro em como o filme trata a fé sem ingenuidade. Em vez de pregação, há desconforto; em vez de redenção fácil, uma cicatriz aberta. “Livrai-nos do Mal” é menos sobre a vitória do sagrado do que sobre a constatação de que o sagrado talvez tenha perdido a guerra. O demônio que se manifesta não é apenas uma entidade externa, é o espelho dos impulsos humanos que a civilização tentou domesticar. É significativo que o exorcismo aconteça em uma delegacia, e não em uma igreja: a cena simboliza a falência das instituições modernas diante do irracional. A cruz e a arma dividem o mesmo espaço, e nenhuma das duas parece suficiente.

O filme se encerra com a sensação incômoda de que não há salvação plena. A fé do protagonista é mais uma tentativa de sobrevivência do que um renascimento. Derrickson compreende que o terror mais eficaz não é o da possessão, mas o da lucidez: o instante em que se percebe que o mal não é um visitante, mas um inquilino permanente da existência. “Livrai-nos do Mal” não quer apenas assustar, quer lembrar que o horror, quando é verdadeiro, nasce do vazio entre o que acreditamos e o que realmente somos. E, nesse espaço sombrio, nenhuma reza parece suficiente.

Filme:
Livrai-nos do Mal

Diretor:

Scott Derrickson

Ano:
2014

Gênero:
Crime/Mistério/Suspense/Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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