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A espada escolhe um garoto de rua… e o tirano começa a caçada no mesmo dia (assista na HBO Max)

Arthur aprende cedo a sobreviver sem mapa e sem sobrenome. Ele circula por tavernas, resolve brigas com a mão e com o olhar, e usa os parceiros para garantir comida, cama e proteção em troca de trabalho sujo. Charlie Hunnam dá ao personagem um jeito de rua que não pede licença, com humor curto e reflexo pronto quando o risco entra pela porta. “Rei Arthur — A Lenda da Espada” apresenta esse cotidiano de cobrança e escapada como regra, antes de colocar a lenda no caminho do protagonista.

Quando a Excalibur entra em cena, ela não aparece como prêmio limpo. O contato vira teste físico e público, com gente olhando, guarda empurrando e o corpo de Arthur reagindo de um jeito que ele não controla. A decisão seguinte é prática, fugir e voltar para o beco ou aceitar ser puxado para um jogo maior. Qualquer escolha cobra algo, porque ele perde acesso aos lugares que dominava, precisa atravessar a cidade por rotas novas e passa a dormir pouco, sempre esperando uma batida na porta ou um grito no corredor.

Becos, tavernas e Excalibur

Guy Ritchie conduz esse início com conversa cortada, piada atravessada e cortes que jogam o personagem de um aperto para o próximo. A edição ajuda quando acompanha a esperteza do grupo, a troca de favores, a corrida para sair de enrascada e o improviso que salva pele. Em alguns trechos, porém, o filme força o espectador a colar pedaços sozinho, porque um acordo acontece num canto, a consequência estoura em outro, e o caminho entre os dois fica no vazio. Dá para entender a direção do golpe, mas nem sempre dá para sentir o esforço da travessia, quem correu, quem ficou para trás, quem pagou a distração com uma noite escondido.

O antagonista entra como alguém que governa por medo e por cálculo, sem precisar levantar a voz para ser obedecido. Jude Law faz Vortigern com frieza de homem que olha para gente como ferramenta, útil para abrir portão, carregar pedra, pagar tributo ou sumir sem registro. O poder dele não se resume ao trono, ele aparece na patrulha na ponte, no homem armado na esquina, no mercado que baixa a cabeça quando a comitiva passa. Para Arthur, enfrentar esse tipo de inimigo custa mais do que valentia, exige escolher em quem confiar e onde aparecer sem virar alvo fácil.

No meio do caminho, a história reúne uma equipe em torno do protagonista e usa o grupo para transformar destino em tarefa diária. Treinar dói, errar cobra caro, e lidar com a espada exige cair, levantar e tentar de novo, às vezes sem entender o que detonou o corpo. A aprendizagem tem cara de repetição, mão que falha, respiração curta e roupa suja no retorno, e a coordenação do grupo vira parte do desafio. Em vez de discurso de líder, o que convence é ver Arthur voltar suado, com roupa rasgada e olho atento, depois de uma noite que poderia ter terminado em captura.

Treino, mapa e perseguição

Astrid Bergès-Frisbey entra como presença que empurra Arthur para fora do improviso e para dentro de um compromisso que ele não pediu. Ela circula perto do grupo, dá aviso, aponta risco, cobra foco, e isso pesa porque obriga o protagonista a abandonar o atalho mais confortável. Quando ele hesita, não é falta de frase bonita, é cálculo de sobrevivência, quem vai pagar a conta de um erro, quem vai ser levado junto, quem vai ficar sem abrigo quando a perseguição aperta e a cidade vira armadilha.

As cenas de ação são o terreno em que Ritchie aposta mais alto. Quando a Excalibur libera poder, o filme encurta distância e transforma a luta numa sequência de golpes curtos, com o protagonista atravessando fileiras e derrubando gente em segundos. Vai melhor quando a geografia do lugar está clara, quando dá para ver de onde vem o golpe e para onde Arthur corre. Em alguns momentos, a velocidade embaralha a leitura, e o espectador precisa se agarrar a detalhes simples, um escudo caindo, um degrau, um corpo jogado no canto, para entender quem ficou de pé. Ainda assim, a sensação de risco físico permanece, porque cada uso da espada cobra energia e deixa a impressão de que o corpo não sai inteiro só por ter “destino”.

“Rei Arthur — A Lenda da Espada” não é um conto de fadas polido, é uma briga por território filmada com sujeira, pressa e sarcasmo. O prazer está menos na reverência à tradição e mais no choque entre mito e rua, um homem que aprende a mandar porque não tem opção confortável. Quando a história encosta no encerramento, o que fica não é uma frase de efeito, é um gesto concreto, Arthur segurando a espada com firmeza, puxando ar, e dando um passo para fora do beco antes de encarar a próxima esquina.

Filme:
Rei Arthur — A Lenda da Espada

Diretor:

Guy Ritchie

Ano:
2017

Gênero:
Ação/Aventura/Drama/Fantasia

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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