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A comédia romântica mais assistida de 2025 na semana de estreia, na Netflix

A indústria cultural tem o maravilhoso dom de transformar tudo em espetáculo. Sofrimento, alegria, doenças e até a morte viram produtos embalados em narrativas sedutoras, prontinhos para o consumo. O que antes era singular e humano, demasiado humano, passa a ser repetido, editado e distribuído sob a forma de entretenimento. Realidades complexas tornam-se fórmulas previsíveis, e os dramas autênticos são traduzidos em roteiros de digestão instantânea. Nada representa melhor a manipulação dos sentimentos do que os famigerados reality shows — muito pouco show e ainda menos reality —, uma praga radiativa que infesta o mundo há mais de duas décadas e meia, mas existe quem transpire sangue para ser aceito como um aspirante a celebridade, sem nenhum pejo quanto a mostrar o seu pior. É esse o caso de Dawn, a protagonista de “A Paris Errada”, disposta a qualquer humilhação desde que tenha a chance da sua vida. Despretensiosa, a comédia romântica de Janeen Damian intenta esquadrinhar as ambições de uma jovem artista, determinada a seguir para a Cidade Luz em busca dos seus sonhos, e descortina uma paixão tão insólita quanto arrebatadora, que começa depois de um ligeiro mal-entendido geográfico.

Dawn é a típica boa moça. Ela vive com as duas irmãs mais novas, Emily e Maxine, e a avó, Birdie, num rancho perdido no interior do Texas, esperando que um dia alguém reconheça seu dom para a escultura. Essa alma sensível poupa o quanto consegue ganhar servindo mesas e preparando café numa lanchonete perto de casa, mas assim mesmo nunca tem o bastante para escapar da rotina que a embrutece e voar para Paris, onde planeja aprimorar seu talento. 

Quando finalmente a academia francesa em que almejava matricular-se envia uma carta de admissão, ela se dá conta de que sonhou alto demais. Sua estrela fica bem menos brilhante depois que ela gastara suas economias para custear o tratamento de Birdie, e o roteiro de Nicole Henrich vai tirando da cartola um coelho atrás do outro, empenhado em sublinhar a determinação da garota. Ela tem uma nova oportunidade, claro, mas, como o título insinua, nada é o que parece.

Sua salvação é “O Pote de Mel”, um reality show que oferece um prêmio de 250 mil dólares para a felizarda que prender o coração de um solteiro que mulher nenhuma poderia dispensar, e “apenas” vinte mil àquelas que saírem do jogo, exatamente a quantia de que Dawn está precisando. O pulo do gato vem aí, embora não muito inventivo. Ela (e todo mundo) contava que o programa seria rodado em Paris, o berço do Iluminismo, não a cidade texana homônima, a 96 quilômetros de casa, e então o filme começa. Possíveis conexões entre a capital francesa e o meio-oeste americano já se cristalizaram no inconsciente coletivo graças a “Paris, Texas” (1984), o clássico de Wim Wenders. Damian não tem a menor vontade de imprimir um ponto de vista original, novo e categoricamente preciso acerca de um território específico da América, tão ligado à história do país e, ao mesmo tempo, tão alheio e tão inadequado aos conceitos que dele tem o restante da humanidade, e isso é muito bom. Prefere fazer o que sabe e contar uma história de amor, a exemplo do que se dá em “Pedido Irlandês” (2024), concentrando-se no elenco. Versátil, Miranda Cosgrove desenvolve uma química satisfatória com Emilija Baranac, Ava Bianchi e Frances Fisher no prólogo, e segue afiada na interação com as belas coadjuvantes do núcleo de membros do tal “O Pote de Mel”. A parceria com Pierson Fodé — que animou entrevistas de divulgação do longa no Brasil com tiradas acerca do sobrenome incomum — é, naturalmente, o ponto alto de “A Paris Errada”, um “Encontros e Desencontros” (2003), sem o olhar glamoroso de Sofia Coppola para as algaravias da mais humana das emoções. Mas igualmente sedutor.

Filme:
A Paris Errada 

Diretor:

Janeen Damian

Ano:
2025

Gênero:
Comédia/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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