Categories: Cultura

A cena mais insana desta comédia da Netflix ficou ainda melhor porque Cameron Diaz e Ashton Kutcher estavam bêbados de verdade

Dirigido por Tom Vaughan, com Cameron Diaz, Ashton Kutcher, Rob Corddry e Lake Bell, “Jogo de Amor em Las Vegas” abre em Nova York com duas vidas emperradas. Joy sai de um noivado desfeito em público, ainda atordoada pelo vexame, enquanto Jack deixa o escritório do pai depois de ser dispensado sem cerimônia. Ambos correm para Las Vegas. Não por desejo de recomeço, mas por puro impulso de fuga, levados por amigos e pela vontade de sumir por alguns dias depois de um desastre íntimo.

Na cidade do excesso, um erro de reserva empurra os dois para o mesmo quarto de hotel, e o resto vem no pacote mais previsível e mais explosivo possível, bebida, festa, ruído e uma madrugada sem freio. Ao amanhecer, Joy e Jack descobrem que se casaram, e a piada de ressaca já aparece cercada por papel passado, memória falha e vergonha acumulada. A coisa piora rápido. Jack pega uma moeda dela, senta diante de um caça-níquel e acerta um jackpot de US$ 3 milhões, transformando o encontro acidental numa briga de cifra alta, assinatura válida e ressentimento instantâneo.

De volta a Nova York, a história larga o brilho artificial do cassino e entra na secura do tribunal, onde um juiz congela a fortuna e impede qualquer separação simples. Ninguém sai dali livre. A convivência forçada, somada ao aconselhamento e ao dinheiro bloqueado, muda o peso do que parecia só uma trapalhada turística, porque agora Joy e Jack precisam dividir tempo, espaço e humilhação depois da audiência. O que em Las Vegas parecia uma anedota bêbada ganha contorno mais áspero quando o acaso vira obrigação e quando o outro deixa de ser um desconhecido inconveniente para se tornar presença fixa.

Quando a guerra vai para casa

A mudança para o apartamento de Jack faz a comédia andar melhor, porque o que antes era confusão de hotel vira rotina invadida, armário dividido, sofá ocupado e pequenas agressões planejadas com paciência mesquinha. Tudo fica mais apertado. “Jogo de Amor em Las Vegas” cresce quando troca o postal da cidade turística pela guerra de desgaste dentro de casa, onde cada gesto vira provocação e cada canto do apartamento parece desenhado para irritar alguém. A leveza continua na superfície, mas o motor da cena está no desconforto físico de dois estranhos presos à mesma obrigação, dividindo teto e raiva enquanto tentam cansar o outro primeiro.

Joy e Jack são opostos bem nítidos desde o começo, ela mais organizada e ferida no orgulho, ele mais largado e recém apeado pelo pai, e o roteiro insiste nesse contraste em quase todos os ambientes, do hotel ao tribunal, do cassino ao apartamento. Isso ajuda e limita. Ajuda porque dá um terreno claro para o atrito, e limita porque às vezes simplifica demais os dois, como se bastasse empilhar diferenças para que a relação se mova sozinha. Ainda assim, Cameron Diaz e Ashton Kutcher sustentam bastante coisa no corpo e no timing, seja no espanto diante da máquina do cassino, na cara travada durante a audiência ou nas implicâncias pequenas que transformam uma casa comum num campo de batalha.

Tom Vaughan não tenta disfarçar que está lidando com uma comédia romântica de estúdio, feita para girar em torno de uma premissa simples e de um conflito fácil de reconhecer, casamento acidental, dinheiro preso e convivência obrigatória. Isso deixa tudo visível. O interesse de “Jogo de Amor em Las Vegas” não está em surpresa nem em profundidade, mas na insistência com que aperta a mesma situação até extrair dela novas humilhações, novos atritos e algum calor entre duas pessoas que começaram no erro e ficaram presas a ele. Quando a trama enfim se acomoda nesse aperto, o filme encontra seu melhor registro no barulho de porta, no carpete gasto do cassino e no brilho duro da moeda girando dentro da máquina.

Filme:
Jogo de Amor em Las Vegas

Diretor:

Tom Vaughan

Ano:
2008

Gênero:
Comédia/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

Recent Posts

Baseada em obra-prima sueca, comédia dramática com Julia Louis-Dreyfus e Will Ferrell chega à Netflix para trazer um assunto incômodo

Logo no início de “Downhill”, Billie (Julia Louis-Dreyfus) e Pete (Will Ferrell) chegam com os…

6 minutos ago

Quanto custa o motor de um Boeing 747?

Descubra quanto custa um motor do Boeing 747, análise do mercado, manutenção e impacto na…

14 minutos ago

Crise na moradia em Portugal leva manifestantes às ruas em Lisboa e mais 15 cidades

Milhares de pessoas voltaram a ocupar as ruas de Portugal neste sábado (21) para protestar…

21 minutos ago

veja a importância do lúdico

Criar oportunidades para que crianças com deficiência visual participem de brincadeiras não apenas contribui para…

38 minutos ago

Muito além de Titanic, DiCaprio e Kate Winslet estrelam uma obra-prima emocional que está na Netflix

Sam Mendes dirige “Foi Apenas um Sonho” apoiado na química áspera de Kate Winslet, Leonardo…

1 hora ago

Budapeste marca o fim do famtour da AmaWaterways pelo Danúbio a bordo do AmaMagna; veja fotos

O Castelo de Buda, um complexo histórico de castelo e palácio em Budapeste, Hungria, situado…

1 hora ago