Dirigido por Kelly Fremon Craig, “Crescendo Juntas” reúne Abby Ryder Fortson, Rachel McAdams, Kathy Bates e Benny Safdie em torno de uma garota de 11 anos que se muda para o subúrbio de Nova Jersey e passa a enfrentar, ao mesmo tempo, a puberdade, a adaptação à nova escola e a dúvida religiosa. Margaret Simon deixa para trás a vida na cidade, o convívio mais próximo com a avó Sylvia e uma rotina conhecida, enquanto tenta entender por que a mudança de casa, o corpo em transformação e a falta de uma religião definida parecem ter chegado de uma vez. Tudo se acumula cedo. Em vez de separar corpo, família e fé, o filme reúne esses elementos no mesmo ano confuso da menina.
Essa mudança de espaço pesa desde o início, porque a saída do ambiente urbano para o subúrbio não aparece apenas como troca de endereço, mas como mudança da vida inteira. Margaret entra em outra escola, precisa fazer novas amizades e aprender o ritmo de um bairro que não conhece, enquanto Barbara, sua mãe, também enfrenta a dificuldade de adaptação longe da cidade e da atividade artística que deixou para trás. A mudança atinge a casa toda. Craig acompanha esse começo sem empurrar a menina para grandes rompantes, preferindo mostrar o atrito entre casa nova, rotina nova e a sensação de que o corpo já começou a cobrar respostas que ninguém sabe muito bem como dar.
No centro dessa passagem está o grupo de meninas com quem Margaret se envolve, e é ali que “Crescendo Juntas” encontra parte importante de seu tom. As conversas sobre menstruação, sutiã, crescimento dos seios e meninos aparecem como ritual coletivo, meio competitivo, meio inseguro, e a protagonista tenta acompanhar um código de entrada que parece ditado por regras não escritas. Há humor e desconforto. Craig trata essas cenas menos como lembrança decorativa da adolescência e mais como ambiente social concreto, em que uma menina recém-chegada mede o próprio corpo contra o das outras, tenta entender o que deveria sentir e descobre que a ansiedade nasce também da comparação constante.
Ao mesmo tempo, Margaret fala com Deus em voz íntima, quase como quem escreve cartas sem papel, e esse diálogo particular dá outra medida às suas dúvidas. Filha de mãe cristã e pai judeu, mas criada sem filiação religiosa definida, ela tenta entender a própria posição quando um trabalho escolar a leva a investigar crenças e práticas que até então circulavam ao seu redor sem nome fixo. A questão não vem pronta. Craig acerta ao manter esse tema ligado à rotina da menina, à presença insistente da avó Sylvia e à curiosidade prática de alguém que não formula teoria sobre fé, mas tenta descobrir onde se encaixa numa família em que cada lado parece puxar um pouco.
Sylvia e Barbara dão ao filme um segundo eixo, porque o crescimento de Margaret não acontece isolado das mulheres adultas que a cercam. Sylvia sofre com a distância depois da mudança e preserva o elo com a neta a partir de Nova York, enquanto Barbara tenta se ajustar à vida suburbana, às tarefas domésticas, ao entorno social e a uma existência mais estreita do que aquela que levava antes. As duas pesam de modos distintos. Kathy Bates faz da avó uma presença expansiva e agarrada à menina, enquanto Rachel McAdams trabalha em um registro mais contido, o de quem reorganiza a própria vida em silêncio enquanto vê a filha entrar numa fase em que já não é possível mediar tudo.
Também ajuda o fato de Kelly Fremon Craig preservar 1970 sem transformar a época em vitrine. O figurino, as casas, a escola, os costumes suburbanos e a maneira como meninas e adultos se observam pertencem claramente àquele momento, mas a diretora usa isso para dar chão às dúvidas de Margaret, não para enfeitar a adaptação de Judy Blume. Nada soa como peça de época. “Crescendo Juntas” encontra sua melhor linha quando junta a oração privada da protagonista, a pressão das amigas, a tensão religiosa dentro da família e o aperto da mudança para mostrar uma menina tentando entender o próprio lugar sem respostas fáceis. Ao redor dela ficam o corredor da escola, a casa nova e a voz da avó ao telefone antes de dormir.
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