Categories: Cultura

A atuação genial de Rose Byrne em suspense claustrofóbico que pouca gente viu

Se você acha que “Marty Supreme” foi o único filme de Benny Safdie a aparecer na corrida do Oscar, ledo engano. “Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria” também circulou com força na temporada de premiações. O suspense psicológico que levou Rose Byrne a um de seus papéis mais dramáticos e complexos, rendendo indicação ao Oscar de Melhor Atriz, tem produção de Safdie em parceria com a produtora A24, além de outros nomes ligados ao cinema independente contemporâneo.

Extremamente pessoal, o filme escrito e dirigido por Mary Bronstein nasce de experiências reais da própria realizadora e carrega uma marca autoral. A história acompanha Linda (Byrne), uma terapeuta que precisa lidar simultaneamente com uma série de crises pessoais enquanto se aproxima lentamente de um colapso emocional.

Com uma filha gravemente doente, Linda se vê como única cuidadora da menina na ausência do marido, sempre ocupado com o trabalho e incapaz de estar presente quando ela mais precisa. O abandono físico e emocional do cônjuge, interpretado por Christian Slater, pesa ainda mais sobre uma mulher que já vive no limite da exaustão. Como se não bastasse, duas novas situações ameaçam desestabilizar de vez sua sanidade: o teto de sua casa desaba depois que um cano hidráulico estoura e alaga o lugar, e uma de suas pacientes, uma jovem mãe que sofre de depressão pós-parto, desaparece sem deixar rastros.

Obrigada a se mudar temporariamente para um quarto de hotel, Linda passa a viver ali com a filha ligada a aparelhos e alimentada por um tubo digestivo. A médica da menina estabelece uma meta rígida: ela precisa ganhar peso dentro de um prazo específico para completar a recuperação. O problema é que os números na balança raramente chegam perto do esperado. A pressão não vem apenas de fora. Linda carrega dentro de si uma culpa silenciosa e persistente, convencida de que tudo o que está acontecendo, a doença da filha, o casamento em ruínas e a própria sensação de fracasso, de alguma forma é responsabilidade sua. Entre o conformismo e o desespero, sua realidade se torna progressivamente mais precária e angustiante.

A fotografia de Christopher Messina reforça essa sensação de desgaste contínuo. Closes constantes e uma iluminação natural que não tenta embelezar nada nos mantêm presos à mente da protagonista. O filme raramente se afasta do rosto de Linda, criando a impressão de que estamos confinados dentro da mesma espiral de ansiedade. A ausência de referências claras de tempo reforça ainda mais essa experiência. Dias parecem se misturar uns aos outros, como se a personagem estivesse presa em um loop interminável de exaustão e confusão.

Uma decisão narrativa importante é nunca mostrar o rosto da criança até a cena final. A escolha tem um propósito claro: manter o espectador colado à perspectiva emocional de Linda. A filha existe sempre como uma presença constante, mas raramente como um personagem autônomo. É como se a protagonista não a percebesse apenas como indivíduo, mas como uma extensão de si mesma, uma responsabilidade absoluta da qual ela não pode se desligar. O filme sugere, assim, uma experiência comum à maternidade: a dissolução das fronteiras entre o indivíduo e o papel de mãe, quando a identidade pessoal começa a desaparecer sob o peso da responsabilidade.

A obra também dialoga com o cinema de Roman Polanski, especialmente com filmes como “O Bebê de Rosemary“ e “Repulsa ao Sexo“, nos quais protagonistas femininas mergulham em um colapso psicológico onde realidade e imaginação se tornam indistinguíveis. Em “Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria”, esse processo também se manifesta no espaço físico. O desmoronamento da casa não é apenas um evento narrativo, mas uma metáfora essencial para compreender a estrutura do filme.

A casa em ruínas representa a perda de controle e a falha estrutural da vida da protagonista. Se o lar costuma simbolizar acolhimento e estabilidade, aqui ele deixa de cumprir essa função. Ao serem obrigadas a viver em um hotel, mãe e filha passam a ocupar um espaço transitório, sem identidade e sem intimidade. O hotel é um lugar de passagem, um território impessoal que nunca se transforma em lar. A perda desse refúgio seguro torna-se a imagem perfeita da deterioração mental de Linda, uma mulher que, pouco a pouco, vê todas as estruturas que sustentavam sua vida desmoronarem.

Filme:
Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria

Diretor:

Mary Bronstein

Ano:
2025

Gênero:
Drama/Suspense

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

Recent Posts

Jane Fonda questiona motivo de Barbra Streisand fazer tributo a Robert Redford no Oscar

Jane Fonda concedeu uma entrevista ao Entertainment Tonight durante uma festa após o Oscar 2026…

8 minutos ago

Um dos maiores fenômenos culturais dos anos 80 está na Netflix

Na vida real, talento puro raramente basta quando orgulho, competição e disciplina entram no mesmo…

33 minutos ago

cidade dos três rios é a primeira parada do AmaMagna pelo Danúbio; veja fotos

Com origem nos Alpes, o rio Inn chega a Passau com tonalidade diferente da do…

42 minutos ago

Após acordo para nova empresa, Oncoclínicas e Porto caem na B3: o que mercado achou?

A Oncoclínicas (ONCO3) confirmou ⁠na noite de domingo ⁠a assinatura de um termo de ‌compromisso…

1 hora ago

Maceió recebe Salão do Estudante com entrada gratuita

Se existe um sonho que continua forte entre os jovens brasileiros é o de estudar…

1 hora ago

HotelDO inicia roadshow no Brasil com encontro para hoteleiros no Rio

A HotelDo deu início ao seu roadshow pelo Brasil com um encontro realizado no Rio de…

2 horas ago