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A anatomia de um relacionamento fracassado no drama de Sofia Coppola com Scarlett Johansson, na Netflix

Bob Harris (Bill Murray) chega a Tóquio para gravar um comercial de uísque que paga bem, exige pouco e cobra um preço silencioso: solidão. O fuso horário bagunça o corpo, o idioma cria barreiras práticas e o hotel vira um abrigo automático entre um compromisso e outro. Tudo funciona, mas nada conecta. Bob cumpre horários, responde educadamente e volta sempre ao mesmo lugar, como alguém que perdeu a chave de casa e decidiu não procurar.

Charlotte (Scarlett Johansson) vive outra forma de espera. Jovem, recém-casada, ela acompanha o marido fotógrafo, John (Giovanni Ribisi), que passa mais tempo trabalhando do que presente. Sozinha numa cidade que não fala sua língua, Charlotte tenta ocupar os dias, mas acaba sempre retornando ao quarto do hotel, onde o silêncio pesa mais do que o jet lag. Falta direção, falta companhia e sobra tempo.

O encontro entre Bob e Charlotte acontece por acaso, no bar do hotel, espaço onde ninguém precisa explicar por que está acordado às três da manhã. A conversa começa sem intenção clara, apenas como um gesto de sobrevivência contra a insônia. Eles falam pouco no início, observam mais, testam o terreno. O obstáculo não é a falta de assunto, mas o receio de atravessar limites que não foram combinados. O efeito imediato é simples: a noite passa mais rápido.

A amizade cresce a partir dessas horas roubadas do descanso. Bob encontra em Charlotte alguém que escuta sem cobrar explicações; Charlotte encontra em Bob alguém que não exige versões melhores de si mesma. A cidade continua impondo distância, ruídos e confusões culturais, mas, juntos, eles contornam isso com humor seco e cumplicidade discreta. Há situações constrangedoras, risos inesperados e uma sensação constante de deslocamento, que a comédia transforma em alívio imediato.

John segue como uma presença lateral, sempre entrando e saindo, reforçando o contraste entre estar junto e estar disponível. Charlotte não confronta diretamente essa ausência, mas sente o peso dela nas decisões pequenas: para onde ir, quanto tempo ficar fora, quando voltar. Bob também carrega uma vida fora dali, marcada por telefonemas e obrigações que lembram, a todo momento, que aquela pausa tem prazo.

“Encontros e Desencontros” funciona justamente porque nunca força grandes declarações. Sofia Coppola observa seus personagens de perto, deixando que gestos mínimos revelem escolhas e limites. Bill Murray entrega um Bob cansado, irônico e vulnerável sem precisar explicar nada em voz alta. Scarlett Johansson constrói uma Charlotte curiosa, perdida e atenta, alguém em transição constante.

O filme aposta na intimidade como algo frágil e temporário, construída no intervalo entre compromissos, voos e fusos horários. Nada ali parece feito para durar muito, e é justamente isso que dá peso a cada encontro. No fim das contas, o que Bob e Charlotte compartilham não resolve suas vidas, mas muda a forma como atravessam aqueles dias, e isso, naquele momento, já é suficiente.

Filme:
Encontros e Desencontros

Diretor:

Sofia Coppola

Ano:
2003

Gênero:
Comédia/Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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