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O filme da Netflix que reúne John Cena, Juan Pablo Raba e o diretor de um clássico moderno de ação

O filme da Netflix que reúne John Cena, Juan Pablo Raba e o diretor de um clássico moderno de ação

“Herói por Encomenda” parece nascer de uma conta simples: juntar John Cena, Alison Brie, um diretor conhecido pelo cinema de ação e uma trama de fuga em meio a um golpe militar fictício. No papel, há material para uma comédia de ação ligeira, sem grandes ambições, mas com potencial de ritmo, carisma e alguma graça. O problema é que o filme de Pierre Morel quase nunca encontra personalidade suficiente para transformar essa combinação em diversão de verdade. Não chega a ser intragável, mas passa boa parte do tempo no território mais ingrato do entretenimento de plataforma: aquele em que tudo parece funcional, esquecível e um pouco cansado.

A história acompanha Mason Pettits, ex-integrante das forças especiais vivido por John Cena, agora preso a uma vida doméstica frustrada e distante da ação que um dia definiu sua identidade. Ele aceita trabalhar como segurança particular de Claire Wellington, jornalista interpretada por Alison Brie, durante uma entrevista com o presidente Venegas, líder de um país fictício chamado Paldonia. A missão, que parecia apenas desconfortável, entra em colapso quando um golpe militar interrompe a viagem e joga Mason, Claire e Venegas em uma fuga pela selva.

É uma estrutura conhecida, e isso não seria problema. Comédias de ação muitas vezes vivem justamente da familiaridade: o choque entre personagens incompatíveis, o perigo que força alianças, a alternância entre tiros, piadas e sobrevivência improvisada. “Herói por Encomenda” sabe quais peças deve mover, mas raramente sabe como torná-las vivas. O roteiro de Jacob Lentz empilha situações esperadas sem encontrar pulso próprio. Há perseguições, discussões, ameaças, revelações e tentativas de humor, mas quase tudo chega com cara de etapa obrigatória.

Carisma em espera

John Cena é, de longe, o principal recurso do filme. Sua presença física tem algo naturalmente cômico quando colocada em situações de inadequação, e ele já demonstrou em outros trabalhos que sabe usar o corpo grandalhão como ferramenta de humor. Em “Herói por Encomenda”, porém, essa habilidade aparece mais como promessa do que como resultado. Mason é desenhado como um ex-soldado desmotivado, alguém que perdeu o brilho e precisa reencontrar alguma utilidade. A ideia poderia render uma variação interessante sobre o herói de ação em crise, mas o filme prefere atalhos fáceis.

Cena tenta sustentar esse equilíbrio entre força bruta e constrangimento cotidiano, mas falta material. As piadas nem sempre têm precisão, as cenas de ação não exploram bem sua fisicalidade e o personagem fica preso entre o brutamontes simpático e o homem em crise, sem que nenhuma das duas frentes ganhe força. O ator não está mal. O filme é que parece pouco interessado em descobrir o que há de mais engraçado ou expressivo em sua presença.

Alison Brie também sofre com um papel mais limitado do que deveria. Claire Wellington é apresentada como jornalista em busca de uma grande matéria, uma profissional que vê na entrevista com Venegas a chance de recuperar relevância. Brie tem agilidade verbal e presença para sustentar personagens mais afiados, mas “Herói por Encomenda” entrega a ela uma função previsível: reagir ao caos, discutir com Mason, insistir em sua pauta e servir de contraponto urbano à brutalidade prática do protagonista. O filme sugere uma tensão entre ambição profissional, ética jornalística e sobrevivência, mas não a desenvolve de modo interessante.

Juan Pablo Raba, como Venegas, recebe o papel mais farsesco do trio. O personagem poderia ser uma boa fonte de ambiguidade cômica, um líder autoritário envolto em autopromoção, cinismo e teatralidade. Em alguns momentos, Raba encontra um tom mais divertido, mas o filme oscila demais. Não sabe se quer fazer sátira política, aventura de selva, comédia de choque cultural ou buddy movie improvisado. Como resultado, Venegas vira menos um personagem de humor afiado do que uma peça excêntrica numa engrenagem frouxa.

Fórmula sem pulso

Pierre Morel tem uma assinatura associada ao cinema de ação por causa de “Busca Implacável”, mas “Herói por Encomenda” não carrega a tensão física nem a secura que tornaram aquele filme tão lembrado. Aqui, a ação é correta no sentido mais básico: personagens correm, se escondem, atiram, brigam, escapam. Mas falta impacto. Falta uma cena que pareça realmente pensada para ficar na memória. Falta também uma relação mais clara entre humor e perigo. Em boas comédias de ação, a piada nasce da ameaça, do erro, da coreografia ou do descompasso entre personalidade e situação. Aqui, muitas vezes, ação e comédia apenas se alternam, sem se contaminar.

A ambientação na selva tampouco ajuda muito. O país fictício de Paldonia é tratado como cenário genérico de instabilidade, com um golpe militar usado mais como dispositivo de aventura do que como comentário político. O filme não precisava ser sofisticado nesse ponto, mas poderia ao menos transformar o espaço em algo mais particular. Em vez disso, a selva vira um fundo funcional para fuga, emboscada e conversa. Tudo parece existir apenas para empurrar os personagens até a próxima situação.

O problema central de “Herói por Encomenda” não é ser leve. Ser leve pode ser uma virtude, especialmente em um gênero que não precisa carregar grandes reflexões para funcionar. O problema é ser leve sem ritmo, sem graça constante e sem cenas de ação fortes o bastante para compensar o roteiro frágil. O filme quer ser uma diversão descompromissada, mas descompromisso não significa falta de acabamento. Mesmo o entretenimento mais casual precisa de timing, energia e alguma surpresa.

Há lampejos em que a combinação parece prestes a funcionar. Cena e Brie têm presença suficiente para sustentar uma dinâmica melhor. Raba poderia levar o filme a um registro mais abertamente farsesco. Christian Slater e Alice Eve aparecem em funções secundárias que sugerem uma trama maior, mas não mudam substancialmente o conjunto. Tudo aponta para uma comédia de ação que poderia abraçar o absurdo, acelerar o ritmo e confiar mais no elenco. Em vez disso, “Herói por Encomenda” permanece contido, previsível e sem muita faísca.

A crítica mais dura talvez dissesse que o filme desperdiça todos os seus nomes. A avaliação mais justa é um pouco menos severa: “Herói por Encomenda” tem atores carismáticos tentando manter de pé um projeto que nunca encontra uma boa razão para existir além da conveniência do consumo rápido. Para quem procura apenas algo leve, com rostos conhecidos e uma trama que não exige muito, pode até servir como passatempo. Mas a sensação que fica é de um filme montado a partir de fórmulas gastas, sem a malícia necessária para renová-las.

“Herói por Encomenda” confirma que uma comédia de ação não precisa ser grandiosa, mas precisa ter pulso. Precisa de química, cenas bem resolvidas, humor com alguma precisão e ação com mínimo de personalidade. O filme tem John Cena, Alison Brie, Pierre Morel e uma premissa fácil de vender. Ainda assim, entrega pouco mais que um produto genérico, desses que passam sem grande esforço e somem quase na mesma velocidade. Não irrita tanto quanto poderia. Também não diverte o bastante para justificar sua própria leveza.



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