“Nacho Libre” mostra logo de início a rotina apertada de Ignacio, chamado por todos de Nacho, personagem interpretado por Jack Black. Criado desde criança em um mosteiro localizado em Oaxaca, no México, ele trabalha na cozinha preparando refeições para os órfãos do local. O problema é que a comida servida quase sempre parece intragável, os recursos são escassos e ninguém ali demonstra grande expectativa em relação ao futuro daquele homem desajeitado que passa boa parte do tempo sonhando acordado com lutadores mascarados.
Enquanto os religiosos mantêm uma rotina rígida dentro do monastério, Nacho passa os dias observando cartazes de lucha libre e imaginando a própria entrada triunfal em um ringue. Existe algo infantil naquele entusiasmo exagerado, mas o filme acerta ao mostrar que o personagem também carrega uma solidão evidente. Ele vive cercado de pessoas, porém raramente é levado a sério. Quando a irmã Encarnación, interpretada por Ana de la Reguera, chega ao local para ajudar as crianças, Nacho passa a enxergar nas lutas uma oportunidade dupla. Ganhar dinheiro para o mosteiro e, de quebra, impressionar a nova freira.
Tentativa de construir uma carreira
A partir desse momento, a história acompanha a tentativa desastrosa de Nacho de construir uma carreira clandestina na luta livre mexicana. Sem preparo físico, sem técnica e sem qualquer apoio institucional, ele decide entrar em pequenas arenas espalhadas pela cidade usando roupas improvisadas e uma máscara barata. As primeiras apresentações são humilhantes. Nacho apanha diante de plateias pequenas, perde dinheiro e ainda corre o risco de ser descoberto pelos religiosos do mosteiro. Mesmo assim, insiste em voltar ao ringue todas as noites.
Grande parte do filme aposta cna parceria entre Nacho e Esqueleto, personagem de Héctor Jiménez. Magro, malandro e completamente sem disciplina, Esqueleto aceita lutar ao lado de Nacho porque também precisa sobreviver. Os dois formam uma dupla improvável. Um sonha em virar herói mascarado. O outro parece interessado apenas em conseguir algum dinheiro e fugir de problemas maiores. Jared Hess transforma essa convivência em uma sucessão de situações absurdas envolvendo golpes mal executados, fugas atrapalhadas e conversas que beiram o nonsense.
Protagonista e arco romântico
Jack Black se vira em boa parte da comédia através do corpo. Ele tropeça, corre de maneira ridícula, leva quedas violentas e reage às derrotas com uma mistura curiosa de orgulho e ingenuidade. Há momentos em que Nacho parece uma criança tentando convencer adultos de que seu plano impossível vai funcionar. O mais engraçado é que ele realmente acredita nisso. Mesmo depois de apanhar diante de ginásios quase vazios, o personagem retorna para casa convencido de que está muito perto da glória esportiva.
A relação com a irmã Encarnación dá certo porque o filme não transforma a personagem em simples recompensa romântica. Ana de la Reguera interpreta a freira com delicadeza e certa perplexidade diante do comportamento de Nacho. Ela percebe que existe bondade naquele cozinheiro atrapalhado, mas também nota o tamanho da confusão em que ele se mete diariamente. O interesse amoroso fica sempre atravessado pela culpa religiosa e pela necessidade de esconder a identidade de lutador mascarado.
Crítica à pobreza
Existe ainda um detalhe curioso na forma como “Nacho Libre” observa a pobreza. O filme não romantiza a situação do mosteiro. As crianças reclamam da comida, os quartos parecem apertados e quase todas as decisões giram em torno da falta de dinheiro. Isso ajuda a dar algum peso emocional às escolhas de Nacho. Entrar em arenas decadentes deixa de ser apenas uma fantasia pessoal. Aquilo também representa uma tentativa desesperada de melhorar minimamente a vida ao redor.
Jared Hess utiliza os espaços de Oaxaca com bastante inteligência. Os corredores simples do mosteiro, os mercados populares e os pequenos ginásios de luta criam uma atmosfera constantemente improvisada. Tudo parece meio gasto, meio apertado e um pouco melancólico. Essa aparência combina perfeitamente com Nacho, um homem que tenta agir como grande astro da luta livre mesmo quando a própria capa parece comprada em uma loja barata de fantasias.
Guerreiro resiliente
O longa não transforma o protagonista em campeão absoluto da noite para o dia. Nacho acumula derrotas, passa vergonha pública e frequentemente estraga os próprios planos por pura impulsividade. Em vários momentos, o personagem fala demais, age sem pensar e acaba piorando situações simples. Isso impede que o filme vire uma fantasia esportiva convencional. Existe sempre um pequeno desastre esperando na próxima esquina.
Mesmo sendo uma comédia familiar, “Nacho Libre” trabalha constantemente com constrangimento. Jared Hess alonga silêncios desconfortáveis, deixa piadas morrerem no ar e observa o protagonista insistindo em atitudes ridículas sem perceber o tamanho da vergonha que provoca. Esse tipo de humor pode dividir parte do público, mas combina perfeitamente com a personalidade de Nacho. Ele deseja reconhecimento o tempo inteiro, embora raramente saiba a maneira correta de consegui-lo.
Ao longo da história, a máscara usada por Nacho ganha um significado curioso dentro do filme. Quando entra no ringue, ele deixa de ser apenas o cozinheiro atrapalhado do mosteiro e passa a ocupar um espaço que nunca conseguiu fora dali. Ainda que apanhe, ainda que fracasse diante do público, existe naquele personagem uma necessidade sincera de ser visto. E Jack Black transforma essa busca por atenção em algo engraçado, melancólico e surpreendentemente humano.
