Nordeste Magazine
Cultura

Hugh Grant e Drew Barrymore em uma das comédias românticas mais encantadoras de todos os tempos, na HBO Max

Hugh Grant e Drew Barrymore em uma das comédias românticas mais encantadoras de todos os tempos, na HBO Max

“Letra e Música”, dirigido por Marc Lawrence, começa com Alex Fletcher (Hugh Grant), antigo integrante de uma banda pop dos anos 80 que agora vive de apresentações nostálgicas em parques, feiras e pequenos eventos corporativos. Ele ainda mora bem em Manhattan, mantém algum reconhecimento público e sabe lidar com fãs saudosistas, mas o espaço que ocupava na indústria musical diminuiu bastante. Quando surge a proposta para compor uma música para a cantora Cora Corman (Haley Bennett), Alex aceita sem pensar muito porque percebe que talvez não apareça outra oportunidade daquele tamanho.

O problema surge quase na mesma velocidade da proposta. Alex cria melodias com facilidade, toca piano sem esforço e improvisa refrões pegajosos, mas trava completamente quando precisa escrever letras. O prazo também não ajuda. A equipe de Cora quer a música pronta em poucos dias e trata o trabalho inteiro como uma operação comercial que não pode atrasar. Hugh Grant trabalha muito bem esse desconforto. Alex tenta parecer tranquilo, faz piadas, dança antigos passos de palco e age como alguém perfeitamente confortável com a decadência da própria fama, embora cada conversa revele um homem tentando impedir que sua carreira desapareça de vez.

Uma parceria improvável

Sophie Fisher, interpretada por Drew Barrymore, entra na história por acidente. Ela substitui uma amiga que costuma cuidar das plantas do apartamento de Alex e acaba ouvindo um trecho da música ainda inacabada. Sem intenção alguma de participar da composição, Sophie corrige alguns versos improvisados por Alex e chama atenção dele quase instantaneamente. A partir dali, o apartamento vira um pequeno escritório improvisado onde os dois passam dias escrevendo, discutindo palavras e tentando terminar a canção antes da reunião marcada com Cora.

Alex e Sophie não passam a noite inteira se declarando ou vivendo situações extravagantes. Eles escrevem juntos, erram juntos e se irritam várias vezes durante o processo. Em uma das melhores sequências, Alex insiste numa frase romântica terrível enquanto Sophie praticamente interrompe o ensaio para impedir que aquilo entre na versão final da música. Hugh Grant usa o próprio charme para deixar Alex engraçado até quando ele está sendo irritante.

Sophie também carrega inseguranças que aparecem aos poucos. Antes de conhecer Alex, ela viveu uma experiência traumática ao colaborar com um escritor famoso que utilizou ideias dela sem reconhecer sua participação. Isso faz com que Sophie esconda o próprio talento durante boa parte da história. Drew Barrymore interpreta essa fragilidade de maneira leve, sem transformar a personagem numa figura excessivamente dramática. Sophie fala muito, tropeça nas próprias frases e parece pedir desculpas até quando está certa.

O peso da indústria pop

A entrada de Cora Corman muda completamente o clima do filme. Interpretada por Haley Bennett, a cantora aparece cercada por empresários, assistentes e decisões absurdas tomadas em reuniões rápidas. Cora quer transformar a música numa mistura de balada romântica com referências espirituais e performances sensuais. Alex aceita quase tudo porque precisa daquele trabalho. Sophie reage pior às mudanças porque ainda vê a composição como algo pessoal.

Marc Lawrence trabalha bem esse choque entre criação artística e mercado musical. Alex pertence a uma geração de artistas moldados pelo rádio, pelos programas de auditório e pelos sucessos românticos dos anos 80. Cora representa outro momento da indústria, mais acelerado, mais performático e totalmente dependente da própria imagem pública. Em vários momentos, Alex parece deslocado dentro daquele universo cheio de coreografias exageradas, figurinos extravagantes e reuniões em que ninguém realmente presta atenção na música.

Scott Porter aparece como Colin Thompson, antigo parceiro musical de Alex. A presença dele reforça ainda mais a sensação de atraso que acompanha o protagonista. Colin conseguiu seguir a carreira com mais estabilidade, enquanto Alex permanece preso à lembrança de um sucesso distante. Existe até um certo constrangimento silencioso quando os dois dividem espaço. Alex tenta agir naturalmente, mas o desconforto aparece até no jeito como ele sorri.

Romance entre ensaios e bloqueios

O romance cresce de forma simples porque nasce dentro da convivência. Alex começa admirando a inteligência de Sophie antes mesmo de perceber qualquer interesse afetivo. Sophie, por outro lado, observa um homem que usa humor e nostalgia para esconder inseguranças bastante reais. O filme trabalha essa aproximação com leveza e sem transformar pequenos conflitos em grandes catástrofes emocionais.

Existe ainda um detalhe muito simpático no modo como “Letra e Música” olha para artistas esquecidos pelo tempo. Alex não aparece como um fracassado completo. Ele continua conhecido, ganha dinheiro e mantém fãs fiéis. A diferença é que agora canta antigos sucessos para públicos pequenos enquanto vê estrelas mais jovens dominarem o mercado. Hugh Grant transforma isso numa qualidade do personagem. Alex vive preso entre o orgulho do passado e o medo constante de virar apenas uma lembrança engraçada da cultura pop.

Marc Lawrence não transforma a história numa sucessão de declarações sentimentais. O centro do filme continua sendo a música que Alex e Sophie precisam terminar juntos. Cada conversa entre os dois surge durante ensaios, reuniões, revisões de versos e apresentações improvisadas. Quando a composição finalmente fica pronta, ela representa muito mais do que uma canção comercial. A música devolve confiança para Sophie e dá a Alex a sensação de que ainda existe espaço para ele além dos shows nostálgicos em parques temáticos.



Fonte

Veja também

Mais de 50 anos depois, uma foto histórica volta ao centro de uma acusação explosiva na Netflix

Redação

Sidney Poitier estrela no Prime Video um clássico que ainda deixa Hollywood pequena diante de sua coragem

Redação

O caso policial mais emblemático do Brasil vira série na Globoplay

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.