Revelações que surgem numa espiral caótica de riso e choro podem dar em narrativas pouco coesas, quase capengas, como uma máquina feita de peças de tamanhos diferentes. O único meio de se chegar a um todo que faça algum sentido diante de material tão heterogêneo é mergulhar no pluralismo e expor cada assunto com o mesmo destaque, facultando ao público descobrir o que mais lhe interessa e se seguirá firme até a última cena — ainda que não tenha a mais pálida noção a respeito do que verá na tela. É difícil não conhecer algum detalhe da vida de Carrie Fisher (1956-2016), que deixou no cinema a marca da versatilidade e do carisma, enquanto tentava não sucumbir ao abuso de drogas. Eternizada na cultura pop como a Princesa Leia Organa dos primeiros filmes da saga Guerra nas Estrelas, em “Lembranças de Hollywood” Fisher volta aos lances autobiográficos que dividiu com o público em “Postcards from the Edge” (“cartões-postais do abismo”, em tradução livre; 1987), ao longo dos quais narra com louvável intrepidez os episódios regados a cocaína e opiodes como o Percodan e o Demerol, e em que medida a interferência da mãe, Debbie Reynolds (1932-2016), foi-lhe benéfica ou perniciosa, na doença e na carreira.
Uma mulher sob influência
Fisher recorre a Suzanne Vale para contar as desventuras de uma atriz de trinta e muitos batendo cabeça, pulando de cama em cama e virando o terror de diretores e presidentes de estúdios, turbinada pelas substâncias que adquire com prescrições médicas suspeitas ou traficantes que encontra nos intervalos das gravações. Mike Nichols (1931-2014) coloca o alter ego de Fisher em situações que evocam o título original de seu livro de memórias, e ela parece estar sempre por um fio, agarrando-se a um peitoril que foge-lhe, exatamente como na cena em que Nichols explica um truque dos sets. Suzanne garante algum dinheiro com produções involuntariamente trash, e quando passa do limite e é hospitalizada depois de uma overdose da qual escapa por pouco, seus empregadores passam a exigir que more com a mãe, Doris Mann, uma diva da Era de Ouro hollywoodiana. Como se adiantasse…
Duas mulheres sob influência
A proximidade compulsória de Suzanne e Doris faz “Lembranças de Hollywood” derivar para o que assemelha-se a um seriado de comédias de situação, sem que perca um milímetro da profundidade dramática — e até ganhe-se mais. Nichols é hábil em capturar a tensão que define esse relacionamento, arriscando justificativas para a instabilidade psicológica de Suzanne, talvez nos genes. Doris é a típica ególatra, alguém que, de propósito ou não, monopoliza as atenções, ofuscando Suzanne, que à primeira vista não se abala, mas também carece dos holofotes, inclusive como ganha-pão. Doris surge preparando uma vitamina de mirtilo, banana e morango à qual acrescenta meia garrafa de vodca, mas diz beber socialmente. Durante uma briga das duas, fica-se sabendo que ela costumava dar soníferos à pequena Suzanne, e nesse momento a trama dá sua grande virada. Como em 90% das vezes, Meryl Streep forja o personagem a seu talante em longas primorosos que ficaram meio esquecidos (mas que continuam relevantes, ao contrários de certos remakes caça-níqueis), e Shirley MacLaine é o próprio sinônimo de graça e charme. Complexa, a relação de Carrie Fisher e Debbie Reynolds foi um amálgama de amor e ódio até o fim, quando Fisher acabou morrendo vítima de comorbidades ligadas ao uso de entorpecentes. Menos de 24 horas mais tarde, Debbie Reynolds juntou-se à filha.
