“Spencer” acompanha Diana Spencer, interpretada por Kristen Stewart, perdida numa estrada rural enquanto tenta chegar à propriedade real de Sandringham para as comemorações de Natal da família britânica. A direção de Pablo Larraín já estabelece ali o que domina o restante do filme. Diana está atrasada, confusa e emocionalmente distante daquele universo cheio de tradições rígidas. Ela entra no palácio carregando a sensação de quem visita um lugar onde nunca conseguiu se sentir realmente aceita. E isso pesa desde a primeira refeição.
A rotina dentro da propriedade é quase como um manual militar. Horários precisam ser seguidos à risca. As roupas já estão separadas para cada compromisso. Os empregados observam tudo em silêncio. Até o peso dos convidados aparece como assunto durante o feriado. Diana percebe rapidamente que qualquer gesto fora do esperado desperta olhares atravessados e comentários discretos pelos corredores. O major Alistair Gregory, vivido por Timothy Spall, age como uma espécie de fiscal permanente da família real. Ele acompanha os passos da princesa e transmite ordens sem alterar o tom de voz, o que deixa a situação ainda mais desconfortável.
Kristen Stewart encontra em Diana uma personagem muito diferente daquela jovem insegura de “Crepúsculo”. Durante anos, muita gente tratou a atriz como limitada por causa da franquia adolescente, mas “Spencer” mostra exatamente o contrário. Stewart trabalha a fragilidade emocional de Diana através de pausas, respiração curta e pequenos gestos nervosos. Em vários momentos, ela parece cansada apenas de ocupar espaço dentro daquele palácio. É uma interpretação delicada, mas também muito angustiada.
O casamento em ruínas
O príncipe Charles, interpretado por Jack Farthing, surge como um homem frio, protocolar e completamente preso às obrigações públicas da monarquia. Ele conversa com Diana sempre mantendo certa distância emocional, quase como alguém preocupado apenas em sustentar uma imagem estável diante da imprensa e da família. Os dois já vivem um casamento destruído e o filme não tenta esconder isso. O desconforto aparece nos jantares, nas conversas privadas e até na maneira como dividem os espaços da casa.
Existe uma cena particularmente dura em que Charles presenteia Diana com um colar igual ao dado para Camilla Parker Bowles. O gesto é uma espécie de provocação silenciosa. Diana percebe imediatamente o significado daquilo e passa a carregar o objeto como um peso físico durante o restante da noite. Pablo Larraín usa detalhes assim para mostrar que a violência emocional dentro daquela família nem sempre aparece através de gritos. Muitas vezes ela chega por meio de pequenas crueldades cuidadosamente calculadas.
Ao mesmo tempo, Diana tenta preservar momentos de normalidade ao lado dos filhos William e Harry. Quando está com os meninos, o filme ganha algum respiro. Ela brinca, ri e demonstra um carinho espontâneo que contrasta bastante com a rigidez do restante da família real. São cenas importantes porque revelam uma mulher tentando proteger os filhos enquanto ela própria já parece emocionalmente exausta.
Corredores que sufocam
Sandringham nunca parece uma residência luxuosa ou acolhedora. O lugar é um labirinto silencioso cheio de portas fechadas, funcionários atentos e regras invisíveis. Diana atravessa corredores enormes enquanto sente que está sendo observada o tempo inteiro. Até durante as refeições existe uma tensão difícil de ignorar.
A fotografia fria e os enquadramentos apertados ajudam bastante nessa sensação de aprisionamento. Em alguns momentos, Diana parece pequena dentro da própria casa onde está hospedada. Larraín também trabalha muito bem os sons do ambiente. Passos, portas abrindo e talheres sobre a mesa ganham um peso estranho, aumentando o desconforto daquela rotina extremamente controlada.
Sally Hawkins aparece como Maggie, uma funcionária da casa que oferece a Diana um raro espaço de acolhimento. As conversas entre as duas ajudam a personagem de Kristen Stewart a respirar em meio à pressão constante da família real. Maggie não resolve os problemas da princesa, mas oferece algo que ninguém mais dentro daquele ambiente parece disposto a dar. Escuta sincera.
Existe até certa ironia amarga na maneira como a monarquia trata Diana ao longo do filme. A instituição depende completamente da imagem pública da princesa, mas ao mesmo tempo parece incapaz de lidar com sua personalidade fora das cerimônias oficiais. Quando Diana se atrasa, muda de roupa ou desaparece por alguns minutos, a família reage quase como se estivesse diante de uma ameaça institucional.
Uma mulher tentando escapar
“Spencer” funciona melhor justamente porque não tenta resumir toda a vida de Diana em duas horas de cinema. Pablo Larraín escolhe acompanhar apenas alguns dias específicos daquele Natal e concentra toda a tensão nesses encontros familiares sufocantes. Isso aproxima o público da personagem de maneira muito mais eficiente do que uma cinebiografia tradicional cheia de datas e acontecimentos históricos.
Kristen Stewart segura o filme inteiro com enorme segurança. Ela consegue mostrar uma Diana fragilizada, mas nunca transformada em vítima passiva. Existe raiva, ironia, tristeza e até cansaço físico em muitos momentos da interpretação. Quando Diana decide atravessar os campos próximos da propriedade para visitar a antiga casa da infância, por exemplo, Stewart transmite a sensação de alguém procurando desesperadamente qualquer lembrança de liberdade.
Pablo Larraín não transforma Diana numa figura santificada. A personagem toma decisões impulsivas, se isola, perde o controle emocional em alguns momentos e coloca pessoas próximas em situações difíceis. Isso torna o filme mais humano. Diana aparece como alguém esmagado por expectativas públicas impossíveis de sustentar diariamente.
“Spencer” termina deixando uma sensação melancólica porque o público já conhece o destino daquela mulher fora das telas. Ainda assim, o longa prefere acompanhar pequenos gestos cotidianos em vez de apostar em grandes discursos sobre a monarquia. Diana apenas tenta respirar, proteger os filhos e sair daquele ambiente sem perder completamente a própria identidade. Em Sandringham, isso já parecia quase impossível.
