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Olga Tokarczuk, a IA e as espumas

Olga Tokarczuk, a IA e as espumas

Foi um breve rebuliço no mundo das letras. Ganhadora do Nobel de Literatura em 2019, a escritora polonesa Olga Tokarczuk causou. O verbo causar vai assim mesmo no modo intransitivo. Não precisa de complemento, bem ao gosto das redes sociais. Tudo por conta de um comentário num evento recente de tecnologia. Ela disse que, sim, consulta a inteligência artificial — as plataformas de LLMs — para trocar umas ideias. Bastou isso para incendiar as bolhas da internet, que são, na verdade, espumas.

De imediato, as espumas das redes a acusaram de escrever seu novo livro com o artifício da IA. O trecho da fala de Olga que chamou a atenção foi o seguinte: “É preciso ter cuidado com as alucinações [da IA]. Quando eu estava escrevendo meu último romance, perguntei a esse modelo avançado quais músicas meus personagens poderiam ter dançado em um baile décadas atrás. A IA me deu alguns títulos e, no final, acrescentou ‘e também Golec Lokiestra’, com esse erro engraçado no nome”.

Na sequência, veio outra fala mais direta, o que certamente feriu os brios das redes e sobretudo da imprensa: “Costumo lançar uma ideia para a máquina analisar, perguntando: ‘Querida, como podemos desenvolver isso de forma primorosa?’ Mesmo sabendo das alucinações e dos inúmeros erros dos algoritmos factuais nos campos da economia rigorosa e dos dados concretos, devo admitir que, na fluidez da ficção literária, essa tecnologia é um recurso de proporções incríveis”.

A intervenção completa de Olga levanta pontos bem mais interessantes, mas a turma das espumas comprova o diagnóstico que ela faz. Segundo a autora, os leitores e as leitoras de hoje estão saturados e têm pouco tempo para absorver narrativas complexas. Quanto mais precisamos de argumentos e pontos de vista diversos para compreender o mundo global, mais escassa é a atenção dos públicos leitores. Ela mesma confessa, no evento, que está mais propensa a se dedicar ao gênero do conto.

“Parece que o mundo, com seu ímpeto destrutivo, não merece mais romances longos e exigentes. O número de pessoas dispostas a ler esses livros só diminui. Antes, havia demanda por eles. Hoje, ler um livro longo é um desafio realmente assustador para muitas pessoas, e constantemente me deparo com o fato de que leitores descobrem o final de ‘The Books of Jacob’ [ainda sem tradução no Brasil] por meio de resumos. Há temas que não podem ser abordados brevemente”, disse, citando seu livro de mil páginas.

“Criamos um paradoxo trágico: o mundo ao nosso redor está se tornando incrivelmente complexo em todas as áreas, e o leitor moderno, apressado, busca freneticamente histórias extremamente simples e absolutamente unidimensionais, perdendo, no processo, a capacidade humana de compreensão complexa da realidade”, assinala Olga, fazendo jus a uma tradição de crítica à modernidade dos centro-europeus. Todo grande escritor ou escritora é um pensador das formas de vida.

A IA é uma prótese

O que Olga Tokarczuk reconhece é que a IA transforma a relação dos humanos com máquinas. As tecnologias são incorporadas pelos corpos e pela mente. Pode ser que a IA tenha virado uma prótese do pensamento, assim como existem próteses de joelhos. São dispositivos que alteram as maneiras de viver. Uma válvula cardíaca prolonga o tempo de vida de uma pessoa com insuficiência. Por sua vez, as plataformas de IA expandem a capacidade de processamento de informações por humanos.

Olga Tokarczuk

A dúvida sempre é: os dispositivos como a IA vão aumentar ou diminuir justamente a capacidade de gerar conhecimento ou de criar o que não existe, nas artes, por exemplo? Olga não foge da discussão, mesmo que ao custo de gerar mal-entendidos: “Comprei a versão mais avançada de um modelo de linguagem e frequentemente me surpreendo com a forma fantástica com que ele amplia meus horizontes e aprofunda meu pensamento criativo. Por outro lado, é preciso ter muito cuidado com isso”.

Ainda na conversa, a escritora demonstrou sua preocupação com a questão econômica. Vale a pena se matar e escrever um livro de mil páginas para quem lê apenas alguns poucos caracteres? Há uma questão prática de remuneração e de sobrevivência dos escritores e das escritoras, num mundo comandado por dinheiro e mercadorias.

É interessante notar o reconhecimento — e a lucidez — de Olga Tokarczuk na incorporação da IA ao seu processo criativo: “Eu uso inteligência artificial da mesma forma que a maioria das pessoas no mundo. Eu a trato como uma ferramenta que me permite documentar e checar fatos rapidamente. Sempre que uso essa ferramenta, eu verifico novamente a informação. Como venho fazendo há décadas por meio da leitura de livros e da exploração de bibliotecas e arquivos”.

Esferas da vida

A breve intervenção de Olga sobre a relação entre escrita e IA remete a uma questão muito contemporânea: em que mundo mesmo estamos vivendo? Daí vem a lembrança do projeto das esferas, escrito pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk. Em três livros e 2 mil páginas (!), ele formulou uma interpretação do mundo em três registros: bolhas, globos e espumas. Hoje é muito comum se falar que estamos fechados em bolhas. O pensador alemão diz que o século 21 se caracteriza pelas formas das espumas.

Dizendo de modo mais simples — mas já fazendo um convite aos leitores e às leitoras —, as bolhas são as nossas formas originárias, a começar pela gestação no útero materno, com a placenta, num ambiente protegido. Ao nascer, o bebê tem apenas e tão somente o acolhimento — o colo, o berço — da mãe e do pai. É o ambiente da intimidade, da proteção, sempre a bolha ou a redoma protetora. Isso vem desde que o humano surgiu na Terra, e não se trata de uma criação de empresas do Vale do Silício.

Na periodização feita pelo filósofo alemão, o tempo das bolhas foi sucedido pela forma do globo. Houve assim a expansão para “fora” — a bolha é o espaço de “dentro”. Ganha proeminência a formação da ideia de uma vida global, mundializada, tendo um centro de comando. Simplificando Sloterdijk, foi o período da formação dos impérios coloniais e do crescimento de religiões como a católica. Coincide com esse tempo a vida da cultura, sobretudo da literatura como a conhecemos.

A resposta sobre “onde estamos” Sloterdijk vai traduzi-la na imagem das espumas. O mundo se globalizou e não tem um poder central que controla tudo. É uma infinidade de bolhas — minúsculas, gigantes — que convivem de forma fragmentária. Nesse contexto, é que surge uma vida social que interage com a tecnologia, da medicina às artes. A vida será melhor ou pior? O desafio está na capacidade humana de investigar, experimentar e sobreviver. O certo é que a IA é um dos componentes dessa era de espumas.

Salvo engano, o recado de Olga Tokarczuk é que os humanos precisam pensar e viver. Trata-se de enfrentar as questões do mundo contemporâneo, mesmo que falando de outras épocas. A saída nunca é se refugiar na fantasia de uma bolha protegida e acolhedora. Em seu mais recente livro lançado no Brasil, “Terra de Empusas: Uma História de Horror no Sanatório”, ela retoma simplesmente a situação extraordinária do romance “A Montanha Mágica” (1925), de Thomas Mann. Uma IA dificilmente teria essa ideia de Olga.



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