BALNEÁRIO CAMBORIÚ – Após mais de uma década sem atualização nacional, o setor de eventos brasileiro voltou a medir sua dimensão econômica e os números revelam uma indústria muito maior, mais complexa e estratégica do que se imaginava.
O III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil 2024/2025, lançado pela Abeoc Brasil em parceria com o Sebrae, entidades do trade e o Observatório da Indústria do Ceará, aponta que a cadeia movimenta atualmente R$ 813,5 bilhões por ano, reúne cerca de 300 mil empresas e gera 12,7 milhões de empregos diretos, terceirizados e temporários.

O estudo chega 13 anos após o último levantamento nacional, realizado em 2013, e 23 anos depois da primeira edição. Em entrevista exclusiva ao M&E durante a BNT Mercosul 2026, que acontece nesta sexta (22) e sábado (23), os representantes do setor, Anita Pires, conselheira fiscal e ex-presidente da Abeoc, Sérgio Junqueira, presidente da Academia Brasileira de Eventos e Turismo, e Osny Maciel, presidente da Abeoc Santa Catarina, apresentaram os novos dados que ajudam a consolidar a indústria de eventos como uma das maiores forças econômicas do país.
“Esse número é ainda parcial, porque os eventos de rua ficaram de fora por motivos técnicos”, afirmou Sérgio Junqueira, presidente da Academia Brasileira de Eventos e Turismo. “Quando você coloca Carnaval de rua, São João do Nordeste e grandes festas populares, eu acredito que já estamos falando de uma indústria trilionária”, revelou.
O levantamento mostra que o setor realizou cerca de 10,1 milhões de eventos em 2024 e contabilizou aproximadamente 1,7 bilhão de participações de público ao longo do ano.
Crescimento acelerado e impacto no PIB
Os números revelam um salto expressivo em relação às edições anteriores do estudo. Em valores corrigidos pela inflação, o faturamento do setor saiu de R$ 178,4 bilhões em 2001 para R$ 422,5 bilhões em 2012, chegando agora a R$ 813,5 bilhões em 2024.
A participação da indústria de eventos no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro também avançou e deve continuar crescendo. A projeção do estudo indica que o setor passará de 4,6% do PIB nacional em 2024 para 5,1% até 2035.

Além disso, a expectativa é que o número total de empregos chegue a 15,6 milhões até 2035.
Para Anita Pires, conselheira fiscal da Abeoc e ex-presidente da entidade, os dados mostram que o setor precisa ser tratado como política estratégica de desenvolvimento.
“A gente precisa transformar essas informações em políticas públicas, em capacitação para mão de obra e em incentivo para que mais pessoas invistam nesse setor”, afirmou.
Segundo Anita, o levantamento também reforça a necessidade de união institucional para que os dados não caiam no esquecimento. “O mais importante agora é garantir continuidade. Que daqui a dois ou três anos a gente tenha um quarto dimensionamento e consiga fortalecer ainda mais o setor”, endossou.
Eventos como motor econômico e social
Durante a entrevista, Sérgio Junqueira destacou ainda que o impacto da indústria vai além da economia direta e da geração de renda.
“Eventos salvam vidas”, afirmou, ao citar o Congresso Mundial de Cardiologia realizado no Rio de Janeiro em 1998. “Mais de 10 mil cardiologistas tiveram acesso às técnicas mais modernas da época. O médico que estava lá voltou melhor preparado e isso impacta diretamente a vida das pessoas”.
Anita ainda ressaltou que a indústria movimenta conhecimento, inovação e desenvolvimento regional. “Onde o evento vai, ele deixa legado. Seja tecnológico, científico, social ou econômico”.
O estudo aponta ainda que o setor possui forte presença de micro e pequenas empresas e uma cadeia altamente diversificada. Cerca de 299,7 mil empresas compõem atualmente o segmento no Brasil.
Gargalo é falta de mão de obra qualificada
Apesar do crescimento acelerado, os representantes do setor apontam a qualificação profissional como o principal desafio da indústria atualmente.
“O principal problema que apareceu no dimensionamento foi a falta de preparo da mão de obra. E isso vai desde profissionais técnicos até prestadores de serviço”, afirmou Pires. Segundo ela, um evento depende de mais de 50 tipos diferentes de serviços e a deficiência na qualificação impacta diretamente a experiência do visitante e a capacidade de atrair novos negócios.
“Uber, taxista, atendente de hotel, guia turístico, segurança. Todo mundo faz parte da experiência do evento”, destacou.
Osny Maciel, presidente da Abeoc Santa Catarina, afirmou que o setor já articula novas iniciativas de capacitação em Santa Catarina.
“Hoje a Univale está lançando cursos de gestão de eventos dentro da feira justamente para ajudar na formação da mão de obra. Isso já é reflexo direto do dimensionamento”, explicou.
Sérgio também ressaltou a importância da profissionalização do setor, que deixou de ser visto apenas como atividade temporária. “Hoje é uma carreira. Muitas pessoas têm 10, 15, 20 anos trabalhando com eventos. Nós nos tornamos uma profissão”.
Infraestrutura e aviação seguem como desafios
Outro ponto levantado pelos entrevistados é a necessidade de ampliar a infraestrutura para grandes eventos e melhorar a conectividade aérea do país. Mesmo cidades como São Paulo enfrentam dificuldades para atender a demanda crescente por espaços de convenções e feiras.
“São Paulo já não comporta toda a demanda. Está na hora de alguém acordar e pensar em novos grandes equipamentos para eventos”, disse Sérgio Junqueira.
A malha aérea também foi apontada como gargalo estratégico.
“O turismo corporativo tem um gasto muito maior e precisa de atenção especial das companhias aéreas”, afirmou Osny.
“Esse dimensionamento vai ajudar muito a transformar isso em debate nacional”, complementou Anita.
Pesquisa mobilizou 16 entidades e mais de mil empresas

O III Dimensionamento do Setor de Eventos foi desenvolvido ao longo de 18 meses, envolvendo mais de 14 mil horas de trabalho e a participação de 16 entidades representativas do setor.
O levantamento utilizou dados da Receita Federal, RAIS, Ministério do Trabalho e pesquisas primárias realizadas com empresas de todas as regiões do país.
Mais de mil questionários foram aplicados durante a pesquisa. O estudo também identificou tendências para os próximos dez anos, incluindo crescimento sustentável, ampliação de eventos híbridos e fortalecimento da internacionalização do setor.
Além disso, a pesquisa mostra que práticas sustentáveis já são adotadas pela maioria das empresas do segmento, com destaque para gestão de resíduos, redução do consumo de água e uso de materiais sustentáveis.
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