Nordeste Magazine
Cultura

Indicado a 6 Oscars, um dos papéis mais implacáveis de Cate Blanchett transforma poder em colapso no Prime Video

Indicado a 6 Oscars, um dos papéis mais implacáveis de Cate Blanchett transforma poder em colapso no Prime Video

Há filmes que se apressam em julgar seus personagens. “Tár” prefere esperar que eles se denunciem aos poucos, pelo atrito entre o que dizem, o que escondem e o que já não conseguem controlar. O drama de Todd Field não se comporta como denúncia direta, nem como defesa de Lydia Tár, a maestrina e compositora vivida por Cate Blanchett. Seu interesse está numa região mais incômoda: a distância, cada vez menor, entre a imagem pública de uma artista consagrada e os danos que essa imagem ajudou a conter, administrar ou apagar.

Lydia Tár ocupa um lugar raro no universo em que circula. É admirada, temida, requisitada. Está acostumada a entrar numa sala e alterar imediatamente sua temperatura. Sua autoridade não vem apenas do cargo, da fama ou da reverência que a cerca; nasce também de uma inteligência real, de um domínio técnico evidente e de uma percepção aguda dos códigos de poder. “Tár” entende que a violência institucional nem sempre aparece como gesto bruto. Muitas vezes ela se apresenta como exigência, excelência, bom gosto, cultura. Essa elegância, longe de suavizar o problema, torna tudo mais perturbador.

O filme começa no alto, mas não transforma a queda em espetáculo. A erosão de Lydia acontece por acúmulo: uma resposta seca demais, uma relação profissional atravessada por dependência, uma ausência que pesa, uma lembrança mal acomodada, um sinal de culpa ou paranoia. Field constrói a tensão sem empurrar o público para uma conclusão imediata. O que se acompanha é uma mulher habituada a reger pessoas, discursos e reputações sendo confrontada por forças que escapam de sua batuta. A pergunta mais interessante não é apenas se Lydia será punida. É como ela pôde chegar tão longe sendo tão pouco contestada.

A autoridade em cena

Cate Blanchett é o eixo de “Tár”, mas sua atuação não se resume ao virtuosismo que salta aos olhos. O mérito maior está em não suavizar Lydia para torná-la aceitável. A atriz compõe uma figura fascinante e desagradável, sedutora e autoritária, brilhante e moralmente comprometida. Seu corpo parece educado pela hierarquia: a postura rígida, o olhar avaliador, a maneira de interromper alguém antes que a frase se complete. Lydia não precisa levantar a voz para impor medo. Ela sabe transformar pausas, silêncios e comentários aparentemente técnicos em instrumentos de domínio.

Essa composição seria bem menos interessante se o filme tratasse a personagem como uma impostora. “Tár” incomoda justamente porque reconhece seu talento. Lydia sabe o que faz. Entende de música, de linguagem pública, de prestígio, de autopreservação. Sua competência não atenua seus abusos; torna-os mais difíceis de encaixar em categorias confortáveis. O filme trabalha nesse ponto de fricção em que admiração e repulsa convivem sem se anular. Blanchett é precisa porque não busca absolver a personagem, mas também não a transforma em símbolo simples. Lydia permanece humana, e talvez por isso seja mais inquietante.

A direção de Todd Field acompanha essa complexidade com uma frieza calculada, nem sempre acolhedora. “Tár” é longo, austero, por vezes severo. Suas cenas se prolongam além do ponto em que um drama mais convencional procuraria alívio. As conversas carregam subtexto, os ambientes parecem desenhados para conter a respiração, e os espaços da música clássica surgem como territórios regulados por gestos mínimos de autoridade. Quem fala primeiro, quem espera, quem anota, quem sorri por obrigação: quase tudo importa.

Essa precisão formal é uma das forças do filme, mas também aponta seu limite. Há momentos em que a contenção se aproxima da rigidez. A distância emocional combina com Lydia e com o mundo que ela habita, mas pode tornar a experiência árida. “Tár” não tenta seduzir pelo calor dramático. Pede atenção às nuances, paciência com o ritmo e tolerância a uma opacidade que nem sempre se resolve. A recompensa existe, mas vem sem catarse. O filme não oferece conforto; oferece observação.

O som da queda

Reduzir “Tár” a um filme sobre cancelamento seria estreitar demais seu alcance. A queda pública de Lydia é parte importante da trama, mas o centro está no modo como o poder se organiza antes da queda. Field observa a rede de dependências, favores, expectativas e silêncios que sustenta figuras como ela. O filme se interessa menos pelo instante em que a reputação desaba do que pelos anos invisíveis em que essa reputação funcionou como blindagem.

Por isso, a ambiguidade do roteiro é ao mesmo tempo força e risco. “Tár” não distribui certezas com facilidade. Sugere, desloca, retém informações, deixa que culpa, medo e paranoia se contaminem. Essa escolha impede que o filme vire sentença pronta, mas também pode incomodar quem espera uma posição mais frontal diante do abuso de poder. O melhor modo de ler essa ambiguidade talvez seja não confundi-la com neutralidade. O filme não inocenta Lydia. Mostra, com incômodo rigor, como sua inteligência, sua influência e sua posição social tornam qualquer resposta simples insuficiente.

A música, nesse contexto, não funciona como adorno nobre. É trabalho, linguagem, campo de disputa e ferramenta de distinção. O som tem função dramática. Os silêncios também. Uma pausa pode carregar reprovação; um ruído pode sugerir perda de controle; uma ausência pode pesar como acusação. “Tár” faz do ambiente sonoro uma extensão da mente da protagonista sem transformar esse recurso em truque. Aos poucos, a personagem que parecia dominar todos os ritmos começa a ouvir aquilo que não consegue ordenar.

O filme também é atento à dimensão teatral do prestígio. Lydia não apenas ocupa uma posição; ela a encena o tempo todo. Fala como quem sabe que será citada, caminha como quem sabe que é observada, decide como quem espera obediência. A vida pública e a vida privada acabam contaminadas pela mesma lógica de comando. Mesmo os vínculos afetivos parecem atravessados por cálculo, impaciência ou vigilância. O resultado é uma personagem cercada de gente, mas incapaz de estabelecer uma relação que não passe por algum tipo de assimetria.

Sem antecipar detalhes do desfecho, é possível dizer que “Tár” encontra uma conclusão coerente com seu projeto crítico. A perda de Lydia não é apenas profissional. É simbólica. Uma mulher que organizava o mundo ao redor de sua autoridade precisa lidar com a experiência de já não ser o centro natural das coisas. O filme evita transformar essa virada em punição redentora. O que há é deslocamento, exposição, rebaixamento de status. Para alguém que construiu a própria identidade sobre controle e distinção, isso é devastador o bastante.

“Tár” não é um filme sem falhas. Pode soar frio demais, calculado demais, satisfeito demais com sua inteligência. Sua duração cobra paciência, e sua recusa de explicações pode afastar parte do público. Ainda assim, esses limites pertencem ao tipo de obra que ele escolhe ser: um drama exigente sobre uma personagem difícil, situado num mundo em que cultura e poder se protegem com naturalidade assustadora.

O saldo é forte. “Tár” impressiona porque não transforma Lydia em caso exemplar, nem reduz sua história a uma moral fácil. O filme observa como o prestígio se acumula, como a autoridade se naturaliza e como a violência pode circular sob formas educadas. Cate Blanchett sustenta essa arquitetura com uma atuação de precisão feroz, enquanto Todd Field constrói um drama que incomoda por não aliviar suas contradições. A queda de Lydia Tár não começa quando todos passam a vê-la de outro modo. Começa antes, quando ela ainda acredita que pode reger até o ruído que anuncia seu colapso.



Fonte

Veja também

No Prime Video, uma fábula francesa tão delicada que vai partir o espectador por dentro

Redação

Jennifer Lawrence entrega seu lado mais leve e engraçado em comédia romântica na Netflix

Redação

Prime Video tem um vencedor de 3 Oscars que emociona sem apelar para lágrimas fáceis

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.