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Na Netflix, uma amizade improvável nasce do jeito mais divertido, inconveniente e emocionante possível

Na Netflix, uma amizade improvável nasce do jeito mais divertido, inconveniente e emocionante possível

Tito não chega à casa de Felipe como a pessoa certa. Ele não traz currículo adequado, não tem treinamento para cuidar de um tetraplégico e não se comporta como alguém disposto a agradar. É justamente por isso que Felipe, empresário rico vivido por Oscar Martínez, decide contratá-lo. Em “Inseparáveis”, Marcos Carnevale refaz “Intocáveis” com Rodrigo de la Serna como esse assistente fora de lugar, enquanto Alejandra Flechner e Carla Peterson circulam pela rotina de uma casa acostumada a obedecer a horários, cuidados e precauções.

A decisão de Felipe parece capricho, mas logo vira trabalho pesado. Há um corpo que precisa ser movido, banhado, levado de um cômodo a outro, colocado em carros, protegido de quedas e da piedade alheia. Tito entra nessa ordem com outra cadência. Não sabe o bastante, fala demais, reage sem a delicadeza esperada. A casa percebe. As pessoas próximas a Felipe também. A contratação não ameaça apenas o conforto dos empregados ou das mulheres que administram aquele cotidiano. Ela mexe com tarefas que não admitem improviso por muito tempo.

Martínez faz de Felipe alguém mais áspero do que nobre. O rosto segura a ironia, a impaciência, o prazer discreto de ver os outros desconcertados. De la Serna aparece no extremo oposto, com um corpo que avança antes da cabeça. Tito dança, empurra, ocupa, desarruma. Quando os dois dividem a cena sem que a piada venha pronta demais, “Inseparáveis” ganha alguma temperatura. Uma cadeira de rodas no meio da sala, uma ordem doméstica interrompida, um homem que precisa de ajuda e se recusa a ser tratado como caso delicado.

A música fora do lugar

A Argentina entra pelas brechas mais interessantes. Villa Lugano não é só uma origem social colada ao personagem de Tito. O bairro ajuda a deslocar a história para uma diferença de circulação, de dinheiro, de modos. A cumbia “Bombón asesino” carrega outro ruído para dentro de um mundo acostumado à música clássica. O Teatro Colón, o BMW, os interiores elegantes e os deslocamentos de Felipe pela cidade dão à refilmagem uma chance de respirar longe da lembrança francesa.

Essa chance, porém, vem sempre vigiada pelo modelo. Quem conhece “Intocáveis” reconhece depressa demais alguns caminhos. A corrida, a festa, a banheira, a arte contemporânea, a piada com o corpo, a oposição entre repertório erudito e música popular. A sensação não é apenas de homenagem nem de adaptação. É de cena que já chega com o efeito calculado. O público ri antes de ser surpreendido, ou reconhece antes de se envolver.

O incômodo maior está nessa obediência. Carnevale tem lugares, atores e códigos culturais suficientes para fazer a versão argentina se afastar mais. Nem sempre se afasta. O filme parece satisfeito quando troca a superfície da situação, mas mantém a engrenagem quase intacta. Tito constrange um ambiente sofisticado. Felipe se diverte com o constrangimento. A casa reage. A cena passa. Logo outra situação herdada ocupa o lugar.

A mudança em relação ao personagem de “Intocáveis” também pesa. No filme francês, o cuidador era negro e imigrante. Aqui, Tito é branco, argentino, pobre, ligado a um bairro periférico e a uma vida atravessada por conflitos familiares. A tensão deixa de passar por raça e imigração e se concentra em classe, comportamento, antecedentes, acesso aos espaços. Não é uma alteração pequena. Ela pede outro tipo de aspereza, porque o choque agora depende menos da condição de estrangeiro e mais da distância entre duas Argentinas dentro da mesma cidade.

“Inseparáveis” toca nessa distância sem permanecer tempo suficiente nela. Tito traz desordem à casa, mas a desordem muitas vezes se transforma rápido em graça. Sua falta de preparo é séria. Um cuidador improvisado pode errar o banho, a transferência, o carro, a exposição pública de um homem que depende dele. O risco aparece, mas a comédia costuma apará-lo antes que deixe marcas mais duras. Fica a impressão de que o roteiro quer o perigo do despreparo, desde que ele não atrapalhe demais a curva sentimental.

A cadeira e o rosto

A dupla principal compensa parte dessa cautela. Martínez não santifica Felipe. O personagem pode ser frio, testar limites, usar Tito para desorganizar a própria casa. Há algo de provocação em sua escolha, como se a eficiência ao redor já tivesse virado uma segunda prisão. Felipe não quer só um funcionário. Quer alguém que não peça licença demais.

De la Serna também trabalha perto do excesso. Tito às vezes parece empurrado para o tipo conhecido do homem popular que salva o rico de sua bolha. É um perigo constante. A fala alta, a dança, a inadequação em ambientes formais e a espontaneidade como remédio para a vida alheia poderiam achatar o personagem. Em alguns momentos, achatam. Em outros, o ator usa essa falta de medida a favor da cena. Tito não foi chamado porque saberia seguir protocolos. Foi chamado porque sua presença irrita os protocolos.

As personagens ao redor ajudam a medir o tamanho da imprudência. Verónica e Ivonne enxergam o problema antes que Felipe queira explicá-lo. A filha adolescente aparece como lembrança de outra distância, menos ligada à cadeira e mais à vida familiar que se afastou. A casa tem empregados, regras, horários, mas não tem controle sobre tudo. Tito apenas torna essa falha mais barulhenta.

Há instantes em que a emoção chega sublinhada demais. A música conduz o espectador com pouca paciência. Algumas passagens parecem arrumadas para amaciar o desconforto logo depois de produzi-lo. O filme prefere manter Felipe e Tito dentro de uma amizade reconhecível, com choques suficientes para divertir e poucos danos reais para complicar a conciliação.

Mesmo com essa cautela, algumas imagens ficam. Felipe diante do Teatro Colón com Tito ao lado. A cadeira de rodas entrando e saindo de carros. A cumbia atravessando um ambiente que esperava outra música. Tito em uma casa que não sabe bem se o admite ou se apenas o suporta. São momentos em que a versão argentina encontra matéria própria, feita de espaço, som e constrangimento.

O problema é que “Intocáveis” continua perto demais. “Inseparáveis” tem bons atores, uma localização promissora e uma diferença social que poderia ferir mais. Mas volta com frequência ao caminho já marcado. Martínez e De la Serna seguram o filme quando a cena ameaça virar repetição. A cadeira, a porta, o carro, a música popular no lugar errado ainda puxam o olhar. O remake deveria permanecer mais tempo nesses atritos, antes que a próxima lembrança do original entre pela sala



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