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Pouca gente lembra, mas Melissa McCarthy dividiu cena com Christina Aguilera nesta comédia da Netflix

Pouca gente lembra, mas Melissa McCarthy dividiu cena com Christina Aguilera nesta comédia da Netflix

Dan escolhe um momento cruelmente doméstico para desmontar a vida de Deanna. A filha acaba de ser deixada na Universidade Decatur, o carro ainda carrega aquele resto de missão cumprida dos pais, e ele anuncia o divórcio. Há outra mulher. Em “Alma da Festa”, Ben Falcone parte desse corte para devolver a personagem de Melissa McCarthy ao mesmo campus onde Maddie, vivida por Molly Gordon, tenta terminar a faculdade. Também estão por perto Maya Rudolph e Gillian Jacobs, em torno de uma mulher que decide concluir o curso de arqueologia abandonado anos antes, quando ficou grávida.

A decisão de voltar a estudar não nasce como capricho. Deanna descobre de uma vez que o casamento acabou, que a casa não lhe pertence como imaginava e que sua segurança dependia de Dan mais do que convinha admitir. A universidade aparece quase como providência burocrática. Matrícula, sala, colegas, dormitório, mensalidade. Antes de rejuvenescer, ela precisa caber em espaços pensados para gente da idade da filha.

Esse é o material mais promissor da comédia. Uma mãe atravessa o campus como visitante indesejada e, ao mesmo tempo, como alguém que tem direito atrasado àquele lugar. Maddie não esperava dividir festas, corredores e amigas com Deanna. A vergonha da filha poderia ter durado mais. A vergonha da mãe também. Mas o desconforto em “Alma da Festa” costuma ser breve. Ele surge, é percebido, rende uma cena e logo encontra uma mão estendida.

Porta de dormitório

A nova vida de Deanna se espalha por ambientes muito marcados. Há quarto compartilhado, casa de sororidade, aula de arqueologia, festa de fraternidade, biblioteca, casamento do ex-marido e uma festa de arrecadação. Falcone organiza a passagem por esses lugares sem deixar que um deles machuque demais o seguinte. A personagem entra num espaço estranho, chama atenção, recebe alguma resistência e acaba absorvida pelo grupo.

McCarthy aproveita melhor os pequenos desajustes do que as grandes viradas. Deanna tem uma alegria que chega antes da autorização dos outros. Fala como mãe quando tenta ser colega. Mostra entusiasmo quando o ambiente ainda não decidiu se a aceita. Na apresentação oral, a insegurança diante da turma dá à atriz uma chance clara de trabalhar o corpo travado, a voz sem apoio, a insistência de quem já não pode simplesmente fugir da sala.

Falta a essa exposição um entorno menos dócil. Maddie estranha a presença da mãe, mas sua reação logo perde força. As amigas da sororidade passam do espanto ao acolhimento com pouca fricção. Jennifer e Trina, que zombam da idade de Deanna, ficam na superfície de antagonistas escolares. Leonor, a colega reclusa de quarto, poderia tornar o dormitório um espaço mais incômodo. Jack, o estudante mais jovem que se envolve com Deanna, acrescenta surpresa e prazer, mas a complicação familiar ligada a Marcie entra sem alterar muito o rumo da história.

Gillian Jacobs, como Helen, escapa um pouco dessa acomodação. A aluna mais velha que ficou anos em coma traz uma estranheza lateral, menos polida, e por isso chama atenção mesmo sem dominar a cena. Maya Rudolph aparece como Christine, amiga de Deanna, com a função de puxar a protagonista para fora do mundo universitário. Sua presença lembra que há uma vida adulta em ruínas perto dali, embora a comédia retorne depressa aos quartos, às festas e às novas amigas.

A aceitação rápida tem efeito ambíguo. Deanna não vira apenas alvo de piada, e isso preserva a personagem de uma crueldade fácil. O problema é que a proteção vem cedo. A mãe que invade o território da filha encontra menos portas fechadas do que a situação prometia. O campus deveria obrigá-la a negociar mais, esperar mais, errar mais diante de Maddie. Em vez disso, a turma se organiza ao redor dela com uma generosidade quase automática.

Dinheiro na pista

A parte mais áspera aparece quando o divórcio deixa de ser cena de humilhação conjugal e vira conta. Dan segue adiante com Marcie. A casa, o apoio financeiro e a possibilidade de pagar a faculdade entram na mesa. Deanna não está apenas tentando recuperar um diploma. Ela tenta terminar algo que foi interrompido por maternidade, casamento e dependência. A comédia toca nisso sem fazer discurso, o que torna o dado mais forte.

Quando a ameaça fica direta, a saída vem pela festa. Marcie corta o suporte financeiro, e as colegas se mobilizam para arrecadar dinheiro. Helen espalha a notícia de que Christina Aguilera pode aparecer. A promessa atrai estudantes. A mensalidade se mistura ao espetáculo, e o risco de abandono vira evento no campus. É uma solução coerente com o tom do filme, mas também evidencia sua pressa em transformar aperto em celebração.

A festa dos anos 1980, a disputa de dança, o chocolate com maconha ingerido sem saber, o casamento de Dan e Marcie e a arrecadação final formam uma sequência de episódios cômicos mais soltos do que progressivos. Cada um oferece a McCarthy um tipo de exposição. O conjunto, porém, raramente deixa marcas duradouras. Uma cena parece menos empurrar a próxima do que abrir espaço para outra situação reconhecível.

Mesmo assim, há uma escolha simpática em não punir Deanna por querer continuar. Ela deseja, volta a estudar, incomoda a filha, aceita o interesse de um rapaz mais jovem, aparece onde não foi chamada. A comédia fica do lado dela quase sempre. Esse afeto impede o filme de afundar numa coleção de vexames maternos. Também limita o alcance do conflito. Ninguém parece disposto a deixá-la por muito tempo diante do custo de suas decisões.

McCarthy carrega melhor a personagem quando a cena permite alguma aspereza. Deanna não precisa parecer admirável o tempo todo. É mais interessante quando sua cordialidade invade, quando sua euforia atrapalha, quando sua necessidade de pertencer chega antes da leitura correta do ambiente. A atriz entende essa mistura de carência e atrevimento. O material ao redor dela, muitas vezes, prefere arredondar a situação.

A imagem que sobra é pequena. Deanna aparece no campus da filha e obriga Maddie a lidar com uma mãe que deixou de ficar no lugar esperado. A porta se abre, a turma aceita, a festa começa. “Alma da Festa” teria outra força se mantivesse Deanna mais alguns minutos no corredor.



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