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Nicole Kidman surge na Netflix como uma vilã gelada em uma fantasia que quase virou império no cinema

Nicole Kidman surge na Netflix como uma vilã gelada em uma fantasia que quase virou império no cinema

Desde a antiguidade, narrativas sobre seres mitológicos e os indivíduos excepcionais que com eles estabelecem alguma conexão caem no gosto do público. Poderes ocultos que desafiam a razão e constituem um atalho do humano para o divino tornam-se uma metáfora acerca da força que paira entre o céu e a terra, revelando grandeza por trás de uma aparente fragilidade. O problema sempre foi discernir o que levaria ao bem dos tantos logros do demônio, e essa singela questão supera o entendimento de muitos, despertando também o interesse de quase todos. Philip Pullman é um obcecado pelos enigmas que pairam entre o céu, a terra e além, e nas mais de quatro centenas de páginas de “Northern Lights” (“auroras do norte”, em tradução livre; 1995) o britânico destrincha algumas das várias nuanças do sobrenatural ao urdir uma fábula sobre maturidade e autorrevelações, tão salvíficas quanto perigosas. Chris Weitz faz de “A Bússola de Ouro” uma versão bastante aplicada do livro de Pullman, apostando em efeitos especiais que hipnotizam a audiência. Exatamente como sói acontecer nesses filmes.

Duplas identidades

Chega um momento na vida em que, se tínhamos alguma ilusão quanto a sermos capazes de liquidar os problemas do mundo, essa quimera de onipotência é soterrada pela inescapável verdade que arrumar nosso próprio quarto já é exaustivo o bastante. O tempo, senhor da razão e de tudo quanto há de ilógico, não para nunca, não admite ser desapontado e, caprichoso, tem as suas vontades e os seus planos para o homem. Nessa quadra da existência é que está Lyra Belacqua, a heroína que se lança rumo a uma dimensão paralela a fim de investigar o que vem acontecendo com crianças que desaparecem num lugar mágico que se assemelha à Inglaterra vitoriana. Tudo leva a crer que um tal Magistério seja o responsável, e o roteiro de Weitz abusa da mitologia grega para fornecer pistas que levem a uma explicação satisfatória. Os daimons, divindades que fazem a ponte entre os deuses e os seres humanos, costumam dar o veredito sobre culpados e inocentes, mas eles também estão confusos, e Lyra e sua habilidade com o aletiômetro, a bússola de ouro do título, podem virar o jogo. Dakota Blue Richards rouba a cena como a candidata a messias, e não é ofensivo dizer que ela e os bichos de computação gráfica são o bastante para segurar quem assiste.



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