O governo interino do Rio suspendeu a compra de um helicóptero Black Hawk para a Polícia Militar após identificar suspeitas na licitação
O governo em exercício do Rio de Janeiro suspendeu na última semana, a compra de um helicóptero Sikorsky UH-60L Black Hawk destinado à Polícia Militar após identificar possíveis irregularidades no processo licitatório e suspeitas de que a aeronave ofertada seria usada ou conteria peças seminovas.
O contrato, assinado em janeiro pelo então governador Cláudio Castro, previa investimento de R$ 70,3 milhões na aquisição do modelo para reforçar as operações do Grupamento Aeromóvel (GAM).
A suspensão ocorre após uma revisão conduzida pela equipe do governador interino, desembargador Ricardo Couto, que analisou contratos estaduais e concluiu, preliminarmente, que nenhum recurso público havia sido liberado para a compra até o momento.
Revisão do contrato
O valor contratado — pouco mais de US$ 12,6 milhões — gerou questionamentos dentro do governo por estar significativamente abaixo do preço pago pela Força Aérea Brasileira na aquisição de onze helicópteros Black Hawk em 2025. Na operação federal, cada unidade teve custo médio de US$ 20,9 milhões.
A diferença de valores levantou suspeitas sobre a condição operacional da aeronave oferecida ao estado, incluindo a possibilidade de utilização de componentes de segunda mão.
Apesar da formalização do contrato em janeiro, o pagamento não chegou a ser executado.
Estrutura da licitação
A licitação foi aberta em 2024 para aquisição de um helicóptero blindado voltado às operações da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Segundo o edital, o objetivo era ampliar a proteção aérea da corporação diante do aumento de ataques armados contra aeronaves policiais. O documento afirma que disparos antes realizados para facilitar fugas de criminosos passaram a ter como objetivo atingir os helicópteros da corporação.
A Polícia Militar também informou que houve aumento de 66,6% nas avarias provocadas por disparos de armas de fogo contra aeronaves do Grupamento Aeromóvel no último ano.
Entre 2022 e 2025, todos os danos registrados ocorreram no helicóptero de matrícula PR-COE, modelo Huey II, atualmente o único helicóptero blindado entre as sete aeronaves que compõem a frota da corporação.
Durante o levantamento de mercado realizado pela equipe técnica responsável pelo processo, foram identificados quinze modelos de helicópteros blindados. Apenas um deles era o Black Hawk.
Questionamentos sobre concorrência
Em agosto, durante o andamento do processo, a Polícia Militar realizou uma audiência pública para responder questionamentos de empresas interessadas na concorrência.
Parte das empresas apontou que os critérios técnicos previstos no edital poderiam restringir a competitividade e indicar possível direcionamento do certame.
Um levantamento publicado pelo portal G1 mostrou que duas empresas participantes da disputa possuíam vínculos com o mesmo empresário.
Fernando Carlos da Silva Telles aparece como representante da empresa Flyone no processo licitatório. Documentos da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) indicam que seu sobrinho, Daniel de Sousa Freitas da Silva Telles, ocupa o cargo de diretor de operações da Blue Air, empresa vencedora da concorrência.
Limitações operacionais
Outro fator considerado pelo governo em exercício foi a aplicação prática do Black Hawk em operações urbanas no Rio de Janeiro.
Com aproximadamente quatro toneladas, o helicóptero exige áreas maiores para pouso e manobras, o que pode limitar sua atuação em regiões densamente povoadas.
Integrantes do governo também demonstraram preocupação com o deslocamento de telhados em comunidades durante operações em baixa altitude devido à força gerada pelas hélices. O modelo pode ultrapassar velocidade superior a 350 km/h.
Em nota, o governo interino do Rio disse que a compra permanece sob análise.“Os processos estão sendo examinados sob critérios técnicos e jurídicos e, enquanto passam por análise de conformidade, permanecem suspensos”.
