John Wick corre por Nova York com uma hora de folga e pouca margem para errar. Winston lhe deu esse resto de tempo, quase um favor, quase uma crueldade. Em “John Wick 3 — Parabellum”, Chad Stahelski retoma o personagem de Keanu Reeves depois que ele mata Santino D’Antonio dentro do Hotel Continental, onde matar é proibido. O preço por sua cabeça chega a 14 milhões de dólares. Ian McShane acompanha o prazo se esgotar. Asia Kate Dillon aparece para cobrar quem desobedeceu à Alta Cúpula. Halle Berry entra depois, em Casablanca, com dois cães e uma dívida que John vai cobrar.
A primeira parte avança porque tudo está prestes a deixar de servir. A biblioteca ainda está lá, com suas prateleiras e seu silêncio, mas John entra procurando um livro específico, não repouso. O livro passa de esconderijo a arma. O consultório clandestino ainda recebe o ferido, mas o médico olha para o relógio. Depois do prazo, continuar ajudando também vira infração. A sutura fica pela metade. John precisa terminar o que pode, como pode.
O cerco não depende só de gente armada. Há telefonistas diante de máquinas antigas. Há recepcionistas. Há médicos. Há gerentes que sabem exatamente onde termina a cortesia. Moedas compram serviços. Marcadores obrigam favores. Um rosário abre passagem. Quase ninguém precisa falar muito para reconhecer o valor de cada objeto. John fala menos ainda. Carrega, mostra, entrega, espera a resposta.
Biblioteca, estábulo, faca
Stahelski leva John de lugar em lugar sem tratar cada parada como cenário decorativo. A biblioteca pede silêncio antes do estrago. O estábulo traz cavalos para dentro da fuga. A loja de armas antigas encurta a distância entre os corpos até que as facas dominem a cena. O combate nasce daquilo que está perto. Às vezes é um objeto improvável. Às vezes é um animal. Às vezes é só uma parede ruim para cair.
O exagero faz parte do acordo. Um livro vira arma. Cavalos servem à fuga e ao ataque. Em Casablanca, os cães de Sofia não ficam parados como sinal de dureza. Eles atravessam a ação, mudam o alvo dos homens armados, puxam o olhar para baixo, abrem caminho onde John e Sofia não conseguem passar sozinhos. A sequência se estende, mas tem atrito. Não é só mais uma sala cheia de inimigos.
Quando surgem homens blindados, atirar já não resolve do mesmo jeito. Charon sai do balcão e precisa agir fora da compostura de concierge. O hotel, tão preso a regra e etiqueta, vira ponto de defesa. Há graça nesse deslocamento. Os personagens continuam se comportando como funcionários de uma instituição mesmo quando a instituição está em guerra.
Reeves mantém John quase sempre no limite da fala. O personagem recebe golpes, levanta, recarrega, anda mais um pouco. O rosto não explica o que o corpo já mostra. Cansaço, teimosia, pressa. O filme não lhe dá muitas confissões, e isso combina com um mundo em que favor antigo pesa mais que desabafo. Quem ajuda John não faz apenas um gesto de amizade. Assume uma conta que pode chegar depois.
Sofia entende isso antes de qualquer um. A personagem de Halle Berry não trata a chegada de John como reencontro caloroso. Ela deve algo e se irrita por ter de pagar. Os cães dão presença própria à cena, mas a dívida é o que a puxa para a ação. John não pede ajuda de modo inocente. Ele cobra. Sofia ajuda e já parece calcular o dano.
O deserto demora
Quando John deixa Casablanca e segue para o deserto, o passo muda. A perseguição de Nova York tinha hora marcada. O deserto tem reverência, chefe distante, prova física, submissão. A Alta Cúpula aumenta de tamanho. Nem tudo ganha a mesma urgência. A franquia gosta de dar nome a cada regra, cada cargo, cada passagem. Em alguns momentos, parece haver mais cerimônia do que necessidade.
A Adjudicadora segura parte desse peso porque não precisa gritar. Asia Kate Dillon entra, informa, cobra, segue adiante. Winston, a Diretora e o Bowery King recebem a visita do que ficou pendente. A ajuda a John volta em forma de punição. O passado recente não aparece como lembrança, mas como corte, perda de posição, ameaça direta. Alguém sempre paga pelo atalho que abriu.
O final empilha vidro, vitrines, reflexos, quedas e recomeços. É vistoso e por vezes longo. Zero, vivido por Mark Dacascos, traz uma variação bem-vinda ao tratar John como alvo e ídolo ao mesmo tempo. A admiração dele atrapalha a solenidade do duelo. O hotel continua tentando preservar alguma etiqueta enquanto tudo quebra ao redor. Um massacre com modos.
O terceiro “John Wick” quase se perde no inventário do próprio mundo. Alta Cúpula, Continental, Elder, Adjudicadora, Ruska Roma, marcador, moeda, juramento. Quase tudo chega com nome, procedência e regra de uso. Essa ordem toda pesa. Mas Stahelski volta, com frequência suficiente, para o que está ao alcance da mão. Uma faca. Um cachorro avançando. Um homem diante do balcão. O serviço acabou.
