Para o bem e para o mal, não acredito ter muito em comum com o Nelson Rodrigues (1912-1980), dramaturgo de pena maior. Nossas tangências se contam na mão: a profissão (o jornalismo); o apreço pelo futebol; a baixa acuidade visual.
Dizem que suas crônicas esportivas só ganharam o tempero saboroso, inclusive com o acréscimo de personagens como o Sobrenatural de Almeida, porque Rodrigues não enxergava direito e, por isso, precisava recorrer a subterfúgios complementares para narrar a experiência. Bobagem. Complexo de vira-latas típico dos idiotas da objetividade que, narcisos ao contrário, desdenham da grandeza deste exemplar interessantíssimo das letras brasileiras.
Mas dentre todas as construções rodrigueanas, a que mais me pega é a genial expressão “óbvio ululante”. É a melhor definição para a verdade evidente, esta que fica esperneando à frente, implorando para ser reconhecida. E tem ritmo a desgraçada da junção dessas duas palavrinhas. Tem textura ao falar. É palatável.
Óbvio ululante reina soberano no conjunto idiótico de frases que não só não permitem como não merecem tradução exata. Esta caixa, amarela, fica guardada bem no cantinho superior esquerdo do meu encéfalo e me provoca um risinho egoísta quando estou interagindo com amigos eslovenos.
Raramente a abro em público. É íntima, pessoal. É minha caixa de ferramentas no ofício da escrita. Não fico mostrando para os outros, principalmente aqueles que não a entenderiam.
Afinal, a língua eslovena não tem uma expressão consagrada para dizer óbvio ululante. Nada que funcione tão bem como a cunhada pelo Nelson Rodrigues. É como se a verdade aqui não ganisse, mas enguiçasse. Ou se o gritante precisasse ser guinchado, içado, arrancado do solo — porque os burburinhos parecem muito silenciosos, até um tanto apáticos, numa espécie de legado austro-húngaro que de modo nenhum se assemelha às nossas barulhentas raízes latinas.
A essa altura, preciso confessar: meu risinho egoísta já está transbordando.
Permito-me alguns experimentalismos. Se eu quiser dizer que o saracoteio é coisa nossa eu posso mostrar um samba da Beth Carvalho (1946-2019). Seria očitno kot beli dan, literalmente óbvio como a luz do dia. Mas eu também posso comparar nossas laranjas (dulcíssimas) com as maçãs sem graça daqui — fica completamente óbvio, popolnoma očitno, qual a gente come com gosto, de escorrer caldinho pelo canto da boca, e qual a gente come por obrigação, só para replicar na vida o velho adágio um tanto lorota de que com uma fruta por dia afastamos a necessidade de cuidados médicos.
A esta altura já está escancaradamente óbvio, naravnost očitno, que o vernáculo português brasileiro tem um malemolejo mais gostoso. É tipo botar para competir uma picanha no espeto contra meia-dúzia de čevapčiči na grelha. Tem nem comparação. Fica gritantemente óbvio, kričeče očitno, que a brasilidade que contaminou nossas letras e músicas é algo realmente maravilhoso.
Nenhuma outra cultura, afinal, tem um Chico Buarque para chamar de seu. Ou, parafraseando o que Nelson Rodrigues falava sobre o seu Fluminense:
— Grandes são os outros. O Chico Buarque é enorme.
Eis o óbvio ululante.
