Miranda Priestly agora pendura o próprio casaco. O gesto é pequeno, quase banal, mas não passa despercebido em “O Diabo Veste Prada 2”, de David Frankel, que reencontra Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci duas décadas depois. Andy Sachs perdeu o emprego no jornalismo e volta à Runway como editora de features. Miranda continua no comando da revista, mas o comando já não circula com a mesma facilidade. Há anunciantes, corte de gastos, crise de credibilidade e executivos que entram no escritório sem medo da temperatura da sala.
A Runway ainda parece cara. Mesas longas, roupas escolhidas com precisão, corredores preparados para gente apressada, nomes conhecidos entrando e saindo. Só que alguma coisa nesse luxo ficou mais exposta. Antes, bastava Miranda atravessar a redação para que todos corressem. Agora ela também precisa responder a gente que não sabe, ou não faz questão de saber, o que aquela revista significou. Jay Ravitz chega pela porta corporativa, com consultores e roupa cinza de athleisure. Não tenta disputar elegância. Ele traz outro tipo de ameaça, mais quieta, mais difícil de ridicularizar.
As pequenas humilhações de Miranda rendem mais que os grandes retornos. O RH, a cafeteria, o casaco sem assistente pronta para recolher. Streep mantém a personagem quase no mesmo volume. A pausa continua afiada. O olhar ainda corta antes da fala. A diferença está em volta dela. A empresa aprendeu a limitar chefes como Miranda sem deixar de esmagar quem trabalha para eles. Ninguém precisa gritar quando pode mandar um aviso, cortar uma verba ou convocar uma reunião.
Andy volta por mensagem
Andy é demitida por mensagem de texto enquanto recebe reconhecimento profissional. A cena não precisa ser maior do que isso. O celular faz o serviço. Depois, a volta à Runway já não tem o gosto de iniciação do primeiro “O Diabo Veste Prada”. Andy sabe onde está entrando. Sabe o que Miranda cobra. Sabe também que o lado de fora não oferece um lugar mais limpo, apenas outro tipo de precariedade.
Anne Hathaway dá a Andy uma firmeza sem blindagem. Ela fala com Miranda de outro lugar, mas não está acima da situação. O cargo mudou, a dependência continua em algum grau. A Runway precisa dela depois de uma matéria favorável a uma marca ligada a trabalho precário. Andy precisa de uma redação, mesmo que seja aquela redação, com suas armadilhas antigas e seus problemas novos. A troca não é sentimental. É trabalho.
A sequência chama de volta objetos, ritmos e rostos que o público reconhece rápido. O cinto cerúleo reaparece. As roupas voltam a ser montadas como promessa. Os corredores seguem feitos para deslocamentos urgentes. Em alguns momentos, esses retornos têm graça. Em outros, entram um pouco antes da necessidade da cena, como se a lembrança precisasse aparecer para confirmar presença.
Nigel continua sendo Nigel, e Stanley Tucci sabe o que fazer com pouco espaço. Uma frase, uma entrada, uma reação bastam para recolocar o personagem no tom certo. Ele não carrega o conflito maior, mas evita que o reencontro endureça. Emily Blunt recebe material mais interessante. Emily Charlton não está mais no posto de assistente que aguarda aprovação. Agora circula no mercado de luxo, perto das marcas, da publicidade e do dinheiro que a Runway precisa.
Emily muda de mesa
Emily mudou de mesa, e isso altera o jogo. Antes, ela disputava proximidade com Miranda. Agora pode atrapalhar a antiga chefe por meios profissionais. Pode condicionar uma relação, fechar uma porta, pesar sobre uma negociação. Blunt preserva a acidez da personagem, mas a graça ficou menos dependente do desespero. Emily já não precisa correr atrás de Miranda no mesmo corredor. Pode esperá-la do outro lado.
A revista tenta continuar indispensável. Não basta publicar bem, nem parecer influente, nem vestir as pessoas certas. Há anunciantes a satisfazer, donos cobrando resultado, uma reputação ferida e um bilionário de tecnologia rondando esse prestígio como mais um bem de luxo. Benji Barnes, interpretado por Justin Theroux, entra nesse espaço com a naturalidade de quem transforma cultura em aquisição. Quando ele aparece, a conversa sobre sobrevivência da Runway fica mais clara e também mais fácil demais.
A parte ligada ao dinheiro resolve alguns impasses com conforto excessivo. Depois de cercar a revista com cortes, métricas, marcas e dependência de capital, a saída soa arrumada. O brilho também cobra seu preço. Há viagens, cameos, vitrines, roupas e a vontade evidente de manter Miranda reconhecível, poderosa o bastante para justificar o retorno e diminuída o bastante para caber no presente.
A comédia encontra bons alvos nas boas maneiras corporativas. O mundo que agora censura Miranda não parece exatamente melhor. Parece treinado. A crueldade ganhou formulário, linguagem macia e roupa neutra. Uma demissão pode chegar por mensagem. Um corte pode vir com vocabulário de eficiência. Um chefe pode sorrir enquanto esvazia uma sala.
Por isso, a Runway fica mais interessante quando deixa de ser lembrança e vira lugar de trabalho. Publicar, vender, agradar, reparar dano, negociar anúncio, sobreviver até a próxima reunião. O escritório continua lustroso, artificial, cheio de gente muito bem vestida. Miranda ainda anda como se cada porta fosse se abrir sozinha. Às vezes abre. Às vezes há alguém no balcão, no RH ou na diretoria esperando que ela peça.
