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Um cadáver, documentos falsos e uma mentira contra Hitler movem o filme mais impressionante e subestimado da Netflix

Um cadáver, documentos falsos e uma mentira contra Hitler movem o filme mais impressionante e subestimado da Netflix

A maleta precisa chegar inteira, mas não depressa demais. Precisa parecer perdida, encontrada por acaso, aberta por quem não deveria abri-la. Em “O Soldado que Não Existiu”, John Madden acompanha Colin Firth, Matthew Macfadyen, Kelly Macdonald e Penelope Wilton numa operação britânica de 1943 em que um cadáver ganha uniforme, nome, cartas e documentos falsos para enganar os alemães sobre a invasão da Sicília. O plano é mórbido, burocrático e frágil. Depende de água salgada, papel seco, autoridades espanholas, agentes alemães e de um morto que não pode contradizer ninguém.

A Sicília aparece como o alvo óbvio demais. Os Aliados precisam atacar, mas a evidência do destino torna o ataque mais perigoso. A resposta de Ewen Montagu e Charles Cholmondeley não passa por canhões nem por mapas grandiosos. Passa por escolher um corpo, inventar o major William Martin e fazer com que uma mentira caiba nos bolsos de um uniforme. Recibos, cartas, fotografia, maleta. Cada coisa tem que parecer pouco importante o bastante para ser crível.

Madden filma essa guerra em salas, corredores e mesas. Há muita conversa, e nem toda conversa escapa da explicação. Mas a escolha combina com a operação. O risco não está só no submarino que leva o corpo até a costa espanhola. Está num funcionário que pode desconfiar da maleta, numa autópsia que pode ir longe demais, numa carta lida com atenção errada. A espionagem aqui tem menos glamour que atrito de cartório.

Nos bolsos de William

O trecho mais vivo acompanha a montagem da pessoa que nunca viveu. Glyndwr Michael, morto usado pela inteligência britânica, vira William Martin por acréscimo. Não basta vestir o cadáver. É preciso dar a ele uma noiva, uma caligrafia afetiva, uma fotografia carregada perto do peito, pequenas sobras de vida comum. O chamado lixo de bolso é tratado como peça de guerra. Um recibo pode valer mais do que uma fala patriótica.

A presença de Jean Leslie, vivida por Kelly Macdonald, nasce desse detalhe. Sua fotografia vira a imagem de Pam, a noiva do oficial fictício. Hester Leggett, interpretada por Penelope Wilton, participa da fabricação da carta amorosa. O filme encontra aí um humor estranho, quase constrangido. Pessoas sentadas em Londres discutem a intimidade de um casal que não existe para convencer homens que talvez nunca vejam o rosto de quem inventou tudo.

Firth trabalha Montagu com uma rigidez adequada ao ambiente. Ele parece mais à vontade quando mede palavras, observa reações, calcula o efeito de uma informação retida. Macfadyen dá a Cholmondeley uma ansiedade menos elegante, atravessada pelo irmão morto e pela necessidade de provar valor dentro da própria operação. Os dois não precisam virar opostos perfeitos. Funcionam melhor quando a tensão entre eles fica presa a tarefas pequenas, a suspeitas internas, ao corpo que espera destino.

A parte sentimental com Jean Leslie pesa mais quando tenta disputar espaço com a fraude. O triângulo sugerido entre ela, Montagu e Cholmondeley não é inútil, porque nasce do convívio criado em torno de Bill e Pam, os amantes inventados. Mas às vezes toma um caminho mais previsível que a própria operação. A carta falsa, a fotografia e a maleta já carregam afeto, desejo e perda sem pedir uma subtrama tão arrumada.

O cadáver no mar

Quando o corpo é lançado perto da Espanha, a ação muda de mãos. Londres prepara, calcula, finge urgência para recuperar documentos que deseja ver roubados. Depois espera. Pescadores encontram o cadáver. Autoridades recolhem o material. A maleta precisa circular no ritmo certo, diante dos olhos certos. “O Soldado que Não Existiu” aproveita bem essa fase de incerteza, porque o sucesso depende de gente que os protagonistas não controlam.

Há uma graça seca nesse mecanismo. Os britânicos precisam representar preocupação para que a encenação pareça verdadeira. Querem os papéis de volta, mas só depois que tenham sido vistos. Querem parecer vítimas de um acidente, mas planejaram cada peça do acidente. A operação inteira se sustenta numa cadeia de mal-entendidos cuidadosamente plantados. Um erro de pressa, excesso de zelo ou desconfiança desmontaria a farsa.

A presença de Ian Fleming, com a sombra posterior de James Bond, é menos interessante quando soa como piscadela. O filme não precisa desse atalho para parecer espirituoso. A situação já é suficientemente estranha. Um homem morto viaja como mensageiro. Uma identidade falsa precisa ser mais convincente que muitos vivos. Um detalhe sentimental inventado pode alterar a distribuição de tropas no Mediterrâneo.

Madden mantém o acabamento de drama britânico correto, às vezes correto demais. O azul das cenas marítimas, a narração e certos diálogos que reforçam perigos já entendidos deixam a operação mais explicada do que necessário. Mesmo assim, o elenco segura boa parte do excesso. Firth, Macfadyen e Macdonald sabem trabalhar dentro de frases medidas, sem transformar cada hesitação em grande momento.

A ressalva mais dura está no corpo usado para tudo isso. Glyndwr Michael não era William Martin. Era um homem vulnerável que, depois de morto, recebeu posto, noiva, documentos e função militar. A elegância da operação pode encobrir esse dado. O filme percebe o desconforto, mas gosta bastante da esperteza do plano. Em alguns trechos, esse gosto quase vence a aspereza do que está sendo feito.

Ainda sobra um filme sólido, melhor quando permanece junto das coisas que podem ser tocadas. A maleta fechada. A fotografia escolhida. A carta dobrada. O uniforme preparado. O submarino. A costa de Huelva. Os telegramas em Londres. A Segunda Guerra, por esse ângulo, cabe por algumas horas na circulação incerta de papéis falsos presos a um cadáver. Não é pouco. Também não é limpo.



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