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A Netflix tem um filme taiwanês premiado em que até fantasma precisa brigar por audiência

A Netflix tem um filme taiwanês premiado em que até fantasma precisa brigar por audiência

Em “Sociedade dos Talentos Mortos”, do taiwanês John Hsu, a morte não tira ninguém da disputa por emprego, prestígio e audiência. A garota recém-morta vivida por Gingle Wang descobre que, no além, um fantasma sem público pode desaparecer de vez; para escapar desse segundo fim, ela precisa aprender a assustar, com a ajuda de Makoto, o agente interpretado por Bo-lin Chen, e de Catherine, a velha estrela de Sandrine Pinna, dona de um número de hotel que já rendeu fama, medo e carreira. A graça do filme está em começar onde o terror costuma terminar: depois da aparição, quando alguém precisa entender como aquilo foi produzido, quem abriu a porta, quem entrou na hora errada, quem esqueceu de parecer assustador.

Expediente depois da morte

O além imaginado por Hsu tem pouco de repouso e muito de repartição, bastidor e agência de talentos falida. Fantasmas precisam de licença, treinamento, reputação, plateia. Há quem tenha técnica, quem tenha marca, quem tenha uma boa história de morte para vender. A Rookie, como a novata é chamada, não tem quase nada. Sua morte não virou lenda, seu corpo não impõe medo, sua presença parece sempre meio atrasada em relação à própria cena. Quando o vínculo com os vivos enfraquece, ela começa a falhar como imagem ruim, como um sinal prestes a cair. Um objeto ligado à sua vida, jogado fora pela família, torna o risco menos poético e mais duro: sem lembrança, ela perde nitidez; sem nitidez, perde lugar.

O filme funciona melhor quando encara o susto como trabalho manual. Um armário não se abre sozinho, uma porta precisa bater no tempo certo, uma fotografia na parede ajuda a montar o clima, um corpo retorcido deve entrar no quadro antes que a vítima desvie o olhar. No quarto 414, Catherine ainda repete sua coreografia de estrela antiga: a espera, a pose, a contorção, o avanço. É o seu palco, mas também seu limite. A cena que, vista pelo lado dos vivos, poderia ser só uma aparição, vista pelo lado dos mortos vira expediente de artista em decadência, com marcação, desgaste e medo de não funcionar mais. Hsu tira daí uma comédia boa porque não trata o truque como piada fácil. Ele observa o esforço que existe dentro do truque.

Quarto, ranking e câmera

O problema é que o mercado mudou até para os fantasmas. Catherine pertence a uma época em que um quarto assombrado podia sustentar uma carreira. Jessica, sua antiga protegida, já aparece adaptada a outra lógica, mais rápida, mais vendável, feita de programa, entrevista, prêmio, franquia e imagem circulando. O contraste é concreto. Catherine tem hotel, parede, armário, repetição; Jessica tem embalagem, velocidade, alcance. Makoto tenta costurar essas pontas como empresário que ainda acredita numa virada, mesmo cercado de sinais de fim de linha. A Rookie entra nesse grupo não como escolhida milagrosa, mas como problema prático: ela precisa virar alguém antes que não reste mais corpo fantasmagórico para treinar.

Gingle Wang ajuda muito porque não tenta tornar a Rookie adorável à força. A personagem erra o tempo, parece pedir licença antes de assombrar, demora a ocupar o espaço. O medo que ela provoca é quase sempre menor do que o constrangimento de vê-la tentando provocar medo. Bo-lin Chen dá a Makoto uma energia de vendedor cansado, desses que sabem que a promessa é frágil, mas ainda assim empurram a reunião para a frente. Sandrine Pinna encontra outro registro para Catherine: não é só uma diva decadente, é alguém que ainda conhece seu número com precisão física, mesmo quando a indústria já decidiu olhar para outra direção. O trio rende porque a aproximação entre eles não vem pronta como discurso de acolhimento. Vem da necessidade. Uma precisa aprender, outro precisa salvar a aposta, a terceira precisa recuperar o quarto.

Há momentos em que “Sociedade dos Talentos Mortos” acelera mais do que precisa. Quando entram os rankings, as competições, os programas e a sátira das redes, a montagem às vezes se adianta ao prazer da situação. O filme parece confiar menos no próprio achado e empilha estímulos, como se fosse necessário explicar a cada minuto que fantasmas também vivem de performance, imagem e mercado. Não era. As melhores passagens já dizem isso sem levantar cartaz: o treinamento mal executado, o corpo que falha, a veterana presa ao número que a tornou famosa, a novata tentando transformar desajeito em identidade. Mesmo quando pesa a mão, Hsu não perde de todo o chão. Desaparecer, aqui, não é metáfora solta. É perder licença, perder rosto, perder função, perder o lugar exato onde alguém ainda poderia vê-lo.

A boa surpresa do filme está nessa mudança de ângulo. “Sociedade dos Talentos Mortos” pega imagens conhecidas do horror asiático — cabelo no rosto, corpo torto, quarto mal-assombrado, aparição brusca — e recua alguns passos, até revelar o ensaio, a equipe, a falha, a concorrência. Não é paródia preguiçosa. O filme gosta do terror o bastante para mexer em suas engrenagens sem quebrá-las. Por isso, quando a comédia acerta, ela não vem só do susto que dá errado, mas da pequena humilhação profissional que acompanha cada erro. A Rookie, Makoto e Catherine não estão tentando salvar o mundo dos mortos; tentam apenas atravessar mais um dia de trabalho, manter uma assombração de pé e impedir que uma garota recém-morta suma antes de aprender a entrar em cena.



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