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Vencedor do Festival do Rio, este filme de Esmir Filho está na Netflix e merece ser redescoberto

Vencedor do Festival do Rio, este filme de Esmir Filho está na Netflix e merece ser redescoberto

Em “Os Famosos e os Duendes da Morte”, Esmir Filho acompanha um garoto de 16 anos que vive numa cidade rural de colonização alemã no sul do Brasil e passa os dias entre o computador, Bob Dylan e a vontade de ir embora. Henrique Larré faz esse adolescente conhecido na internet como Mr. Tambourine Man; Áurea Baptista interpreta a mãe, Samuel Reginatto aparece como Diego, o amigo de presença mais concreta, e Ismael Caneppele surge como Julian, figura que arrasta o menino para uma área menos segura entre lembrança, desejo e risco.

O Quarto Aceso

O quarto é quase uma estação de espera. Dali o garoto escreve, conversa, escuta “Mr. Tambourine Man”, revê vídeos de uma garota ausente e tenta fabricar uma vida que a cidade não oferece. A internet não entra como enfeite de época, embora o filme carregue marcas muito precisas daquele começo de década, com blogs, chats, imagens ruins, vídeos que parecem chegar de outro planeta. O que interessa é mais simples e mais duro: ele olha muito, repete muito, aproxima a imagem o quanto pode, mas continua sentado no mesmo lugar.

Quando sai do quarto, o mundo não melhora. A escola o põe em situações pequenas e cruéis, como a espera para ser escolhido ou deixado de lado numa partida de futebol. A festa comunitária de tradição alemã tem movimento, gente, música, algum calor coletivo; para ele, porém, tudo soa como um idioma do qual ficou de fora. Em casa, a mãe tenta puxar conversa, tenta manter alguma rotina, tenta preencher o espaço deixado pelo pai, e o cachorro tratado como presença familiar acaba dizendo mais sobre aquela casa do que qualquer explicação direta.

A Ponte Espera

Julian aparece e desloca o filme para fora da tela. Ele não chega para esclarecer a garota dos vídeos nem para organizar o passado em linha reta; chega para tornar mais perigosa a passagem entre imaginar e fazer. A ponte, nesse sentido, é o lugar mais forte do longa. Tem noite, altura, água, lembrança, perigo físico, e não precisa virar símbolo declarado para pesar no corpo do personagem.

A melhor qualidade de “Os Famosos e os Duendes da Morte” está em deixar esses lugares trabalharem. O computador ilumina o rosto do garoto, a paisagem fria de Estrela aperta os espaços, a neblina cobre a cidade, a música de Dylan abre uma estrada que talvez nem exista. Esmir Filho às vezes carrega demais na atmosfera, como se a melancolia precisasse ser reforçada por música, suspensão e imagem granulada ao mesmo tempo. Quando confia na situação, o filme respira melhor: dois amigos fumando sem grande assunto, uma mãe insistindo numa conversa curta, um menino olhando a tela como quem encara uma porta trancada.

Há irregularidade, mas ela não anula o que o filme tem de raro. A adolescência aqui não vira pose bonita nem diagnóstico rápido; aparece em cabos, senhas, vídeos, festa, escola, cachorro, silêncio doméstico e uma ponte que chama mais do que deveria. Henrique Larré segura o papel sem dramatizar cada incômodo, quase sempre com a energia de quem poderia sair correndo e fica. Áurea Baptista dá à mãe uma insistência comum, dessas que se repetem na cozinha, no corredor, perto do cachorro, quando já não se sabe por onde alcançar um filho.

“Os Famosos e os Duendes da Morte” falha quando se apaixona demais pela própria névoa, mas acerta quando encosta no cotidiano e deixa o desconforto aparecer sem anúncio. É um filme de quarto fechado e paisagem aberta, de imagem disponível e contato impossível, de uma juventude que encontra o mundo pela tela e, mesmo assim, continua sem passagem. A cidade não prende o garoto com violência; prende por repetição, por familiaridade, por falta de alternativa visível. No fim, ficam o computador aceso, a música de Dylan, a mãe tentando falar, o amigo ao lado e a ponte no escuro.



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