Em “Fallen”, Scott Hicks conduz Addison Timlin, Jeremy Irvine, Harrison Gilbertson e Lola Kirke por um romance sobrenatural adolescente que começa com uma jovem deixada num reformatório depois de ser responsabilizada pela morte misteriosa de um rapaz. Lucinda Price, a Luce, chega à Sword & Cross com visões que os adultos querem controlar, uma culpa recente grudada ao corpo e dois colegas que a cercam de modos opostos, Daniel pela recusa e pela proteção, Cam pela aproximação direta.
Antes que os anjos caídos tomem conta da conversa, Sword & Cross impõe alguma força ao olhar. A escola tem pedra, jardim úmido, corredor escuro, grades, estátuas, gárgulas, salas de aula onde religião e disciplina parecem ocupar a mesma mesa. Luce atravessa esses espaços como alguém que ainda não sabe se precisa se explicar, fugir ou apenas aprender a pisar sem chamar atenção. O passado, ali, pesa menos como lembrança organizada do que como prontuário, acusação e possibilidade de medicação.
Corredores sob vigilância
Daniel entra quase sempre em retirada. Observa Luce, corta a conversa, nega qualquer intimidade e reaparece quando o perigo exige um gesto rápido, como se o corpo soubesse mais do que a fala permite. Cam faz o contrário, chega perto, flerta, provoca, ocupa o intervalo deixado pelo silêncio do rival. Penn, mais simples e mais útil, oferece à protagonista uma companhia possível, ajuda a circular pela escola e abre pequenas passagens para a investigação do que os demais escondem.
Essa distribuição é clara demais para render surpresa. Daniel carrega uma aparência limpa, dolorida, sempre à beira de uma revelação que demora; Cam vem marcado pela energia do bad boy, pela jaqueta, pelo convite mais fácil; Luce fica no meio, pressionada por atração, medo e informação pela metade. A promessa de um amor atravessado por séculos precisaria aparecer em alguma demora, em algum atrito de conversa, em um reconhecimento menos anunciado. Muitas vezes, porém, a ligação entre Luce e Daniel chega como dado anterior à cena, não como algo que se forma diante do espectador.
A gárgula, ou estátua, que despenca e obriga Daniel a salvar Luce expõe esse limite com nitidez. Há risco físico, há impacto, há a prova de que aquele rapaz evita a garota até o instante em que precisa tocá-la para impedir uma consequência material. Mas a imagem também convoca “Crepúsculo” de imediato, não só pela jovem em perigo e pelo protetor sobrenatural, mas pelo uso do salvamento como atalho para o destino. “Fallen” quer que esse gesto carregue vidas passadas; na tela, ele pesa mais como lembrança de outro modelo de fantasia adolescente.
As regras dos anjos
Quando as explicações começam a se acumular, a escola perde parte da pressão que tinha. Aulas e conversas introduzem anjos caídos, lados de uma guerra espiritual, reencarnações e uma maldição amorosa, mas cada peça parece chegar antes de encontrar uma consequência prática para Luce naquele corredor, naquela sala, naquele dia. O roteiro solta informação, recolhe informação, sugere que alguém sabe mais, adia a próxima resposta. O mistério não se transforma em suspense porque a espera raramente muda o comportamento das pessoas além de manter Daniel distante e Luce confusa.
Ainda há interesse em observar Addison Timlin nesse estado de alerta quase contínuo. Luce entra nos ambientes com a cautela de quem pode ser acusada de novo, e essa tensão serve melhor ao filme do que as declarações sobre seu passado milenar. Lola Kirke também dá a Penn uma vivacidade que escapa da função de guia, mesmo quando a personagem existe sobretudo para levar Luce de uma pista a outra. Já Jeremy Irvine e Harrison Gilbertson ficam presos a posições muito fixas, um encarregado do segredo dolorido, o outro da tentação mais visível, ambos mais desenhados pelo figurino e pela postura do que por convivência.
No fim, “Fallen” encontra um lugar mais forte do que sua paixão central. Sword & Cross tem temperatura, ameaça e um tipo de beleza carregada, com muros pesados, jardins sombrios e objetos prontos para vigiar ou cair. O romance depende demais da palavra destino, enquanto a fantasia tropeça ao ordenar as próprias regras e o clímax chega com voo, asas e revelações que parecem anunciar uma continuação antes de fechar o presente. Fica a imagem de Luce presa entre corredores úmidos, olhares que escondem informação e uma escola que promete mais perigo do que os personagens conseguem sustentar.
