A Polícia Federal retirou as credenciais diplomáticas de um servidor dos Estados Unidos que atuava no Brasil, em resposta à expulsão de um delegado brasileiro do território americano. A medida foi confirmada pelo diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, em entrevista à GloboNews.
Segundo ele, a decisão segue o princípio da reciprocidade adotado pelo governo brasileiro diante do episódio envolvendo o delegado Marcelo Ivo de Carvalho. “Eu retirei com pesar as credenciais de um servidor dos EUA pelo princípio da reciprocidade”, afirmou.
A reação ocorre após o governo de Donald Trump determinar a saída do delegado brasileiro, que participou de uma operação em conjunto com autoridades americanas para a prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) nos Estados Unidos. O parlamentar, considerado foragido pela Justiça brasileira, foi detido e liberado dois dias depois.
O Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental dos EUA justificou a decisão sem citar diretamente o nome do delegado. Em publicação na rede X, afirmou que “nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”.
Falta de comunicação formal
O diretor da PF afirmou que o governo brasileiro ainda não recebeu explicações oficiais sobre os motivos da medida adotada pelos Estados Unidos. Diante disso, o delegado foi orientado a retornar ao Brasil. “Ele voltou por determinação minha, para que possamos esclarecer se há um processo formal no Departamento de Estado ou no ICE”, disse Rodrigues.
O episódio também mobilizou o Palácio do Planalto. Durante viagem à Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil poderia adotar medidas equivalentes caso fosse confirmada irregularidade na ação americana. “Não podemos aceitar essa ingerência, esse abuso de autoridade”, declarou.
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Apesar da retirada da credencial, o governo brasileiro indicou que não pretende adotar medidas mais duras neste momento. Segundo Rodrigues, não há decisão de expulsar autoridades americanas do país, enquanto o Itamaraty conduz tratativas diplomáticas.
Contexto do caso Ramagem
A crise tem origem na atuação do delegado brasileiro em investigação envolvendo Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin no governo Jair Bolsonaro. Ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado e é considerado foragido.
De acordo com a Polícia Federal, Ramagem deixou o Brasil pela fronteira com a Guiana e seguiu para os Estados Unidos, onde permanece desde o ano passado. A tentativa de cooperação entre autoridades dos dois países para efetivar sua prisão acabou desencadeando o impasse diplomático.
