O contato com o que há de mais obscuro e assustador em nossa própria essência aumenta as chances de nos perdermos na complexidade maravilhosa e sufocante de nossa humana e restrita condição, e em paralelo a esse dispendioso processo, contínuo, lento, sem fim, derrubarmos a meia parede que separa o real da fantasia, um território que, ao passo que é feito de magia e de lirismo singelo, permite florescer o desvario em seu estado mais bruto. O menoscabo com a natureza, a ânsia por um progresso sem ordem, a negligência para com as eternas distorções do capitalismo, fabricando catástrofes e multiplicando injustiças, todos esses fatores, reunidos ou cada qual tomado em sua complexa dimensão, são excelente matéria-prima para filmes como “Máquinas Assassinas”. Os abismos tão fundos e tão habitados dos monstros que nós mesmos embalamos são uma fonte de inspiração para Mitch Gould, que faz de seu longa um cartão de visita de tudo quanto já aprontou na extensa carreira de dublê. Movimento aqui é o que não falta.
Truques matadores e profecias coerentes
Fundo de garantia, plano de saúde ou quaisquer benefícios previdenciários definitivamente passam longe das aspirações de tipos cujos coração e mente irmanam-se num processo intrincado e um tanto autodestrutivo, em que boa parte de sua energia é gasta na procura por alguma lembrança que os mova para um lugar onde consigam se refugiar de uma vida miserável. Gould continua a dominar muitos dos truques de seu velho ganha-pão, e coloca em prática muito do que aprendeu, dispondo da ajuda de alguns outros mestres na arte das lutas. O diretor e os corroteiristas Jo Marr e Michael Philip conferem ao longa a aura de épico que também pode ser vista em “Implacável” (2019), um conto sobre desencontros familiares e negócios escusos no qual Jesse V. Johnson burila ideias como determinação e desajuste social, a fermentar na quietude de almas presas no mais soturno dos calabouços. “Máquinas Assassinas” tem a natureza de um preâmbulo para a trama que Johnson desenvolve à luz de um niilismo cru, dispondo do mesmo ídolo do cinema macho. O Vincent Reikker de Louis Mandylor é o líder de um exército de mercenários que combate os rivais a que o título alude, desenvolvidos para subjugar as terras raras não da China ou do Brasil, mas de uma tal República de Al Khazar. Sem nenhuma pretensão, como sói acontecer nessas narrativas, Gould prevê o futuro e joga lenha numa fogueira que arde com mais e mais força. Nunca as subestime.
