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Do mesmo diretor de Parasita, ficção científica com Tilda Swinton, Paul Dano e Lily Collins está na Netflix

Do mesmo diretor de Parasita, ficção científica com Tilda Swinton, Paul Dano e Lily Collins está na Netflix

Quando a corporação Mirando anuncia, em 2007, a criação de uma nova espécie animal com fins alimentícios, o que parece inovação científica rapidamente se transforma em disputa direta entre afeto e lucro no filme “Okja”, dirigido por Bong Joon-ho. A história acompanha Mija (Ahn Seo-hyun), uma garota que vive nas montanhas da Coreia do Sul, e sua relação com Okja, um dos chamados “superporcos”, enquanto a empresa liderada por Lucy Mirando (Tilda Swinton) decide recolher o animal para um concurso global.

Durante dez anos, a Mirando distribui 26 desses animais ao redor do mundo, com a promessa de observar qual deles se adapta melhor a diferentes culturas. Trata-se de uma campanha de marketing bem organizada, com prazo definido e objetivo comercial evidente. Okja cresce longe disso tudo, ao lado de Mija, em uma rotina tranquila, quase isolada. A menina cuida, alimenta e convive com o animal como se fosse parte da família. E é justamente essa convivência que dá peso à história quando a empresa decide buscá-la.

Funcionários da Mirando chegam com autorização, equipamentos e um plano que não admite negociação. Mija reage como pode, tentando impedir a retirada, mas esbarra em uma estrutura que já decidiu o destino de Okja muito antes de aparecer ali. A cena não se prolonga além do necessário: o suficiente para mostrar que, naquele momento, a garota perde completamente o controle da situação. E isso muda tudo.

Deslocamento

A partir daí, “Okja” se transforma em uma jornada de deslocamento. Mija sai do campo e segue o rastro do animal até ambientes urbanos, onde cada passo exige adaptação. Ela não domina aquele espaço, não conhece as regras e depende de ajuda para avançar. É nesse caminho que surge Jay (Paul Dano), integrante de um grupo de ativistas que já monitora as ações da Mirando. Ele oferece informação e estratégia, mas também impõe condições. Não é uma ajuda gratuita, e o filme deixa isso claro sem precisar explicar demais.

Essa aliança funciona mais por necessidade do que por afinidade. Mija quer recuperar Okja; o grupo quer expor a empresa. Em alguns momentos, os objetivos coincidem. Em outros, entram em conflito. E o roteiro aproveita bem essa tensão, mostrando como decisões práticas, seguir um plano ou agir por impulso, têm consequências. Quando Mija tenta agir sozinha, corre o risco de perder o animal de vez. Quando segue os ativistas, precisa aceitar um jogo mais calculado, onde nem sempre ela tem controle.

Transformações de poder

Enquanto isso, Lucy Mirando, interpretada por Tilda Swinton com um tom que mistura carisma e artificialidade, constrói a narrativa pública da empresa. Ela sorri, explica, simplifica e esconde o que precisa esconder. Sua atuação não é exagerada, mas é claramente construída para parecer acessível enquanto mantém tudo sob controle. Lucy não grita ordens; ela organiza discursos. E isso, no contexto do filme, é ainda mais eficiente.

O roteiro avança com ritmo, alternando momentos de ação direta com situações que beiram o absurdo — muitas vezes com humor desconfortável. Há sequências em que a tentativa de intervenção dos ativistas gera confusão, erros de timing e decisões precipitadas. Em outras, o filme desacelera para mostrar o impacto emocional da separação entre Mija e Okja. Esse equilíbrio impede que a história se torne apenas uma perseguição ou apenas um drama. Ela funciona nos dois registros.

Bong Joon-ho também trabalha bem o contraste de ambientes. O espaço aberto das montanhas, onde tudo parecia sob controle, dá lugar a corredores, caminhões, instalações industriais e vitrines públicas. Cada novo cenário impõe regras diferentes e limita as ações de Mija. Não é só uma mudança de lugar; é uma mudança de poder. Quanto mais perto da estrutura da empresa, menos margem de ação ela tem.

Mesmo sem recorrer a discursos explícitos, o filme deixa evidente a crítica ao modo como grandes empresas operam. Mas essa crítica nunca vem isolada. Ela aparece sempre ligada a uma ação: uma coleta, uma apresentação, uma decisão de roteiro dentro da própria empresa. Nada é abstrato. Tudo tem consequência para os personagens.

“Okja” se mantém fiel ao percurso de Mija, às escolhas que ela faz e ao que consegue ou não recuperar ao longo do caminho. É um filme que entende que, diante de estruturas muito maiores, resistir já é uma forma de ação, mesmo quando o resultado não é exatamente o que se esperava.



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