A força do setor cresce mais rápido do que a capacidade de medir seu impacto real (Freepik)

Os eventos já não cabem mais na categoria de “movimento pontual” no turismo brasileiro. Viraram engrenagem e das grandes. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, sustentam uma economia que não para, ocupam hotéis fora de temporada, enchem restaurantes em dias comuns e mantêm uma cadeia inteira girando, do motorista de aplicativo ao pequeno fornecedor.

Os números ajudam a entender o tamanho disso. Em São Paulo, foram 47,2 milhões de turistas em 2025, com R$25,4 bilhões gerados. Não é coincidência. A cidade funciona como uma máquina de eventos, com agenda praticamente contínua entre feiras, congressos e grandes atrações. No Rio de Janeiro, o turismo movimentou R$24,5 bilhões até novembro do mesmo ano, impulsionado por um calendário que mistura entretenimento, eventos corporativos, esportivos e culturais ao longo de todo o ano, segundo dados oficiais das prefeituras.

O que antes era pico, agora virou base. Os eventos deixaram de ser exceção e passaram a estruturar a economia urbana. O problema é que essa força toda ainda não vem acompanhada de uma medição à altura. Falta precisão, falta padrão e, principalmente, falta transformar números em estratégia de longo prazo.

É aí que começa o desafio. A professora e pesquisadora da USP, Mariana Aldrigui, mostra um ponto sensível dessa discussão. “Em termos de literatura recente, há poucos modelos consistentes de mensuração de impacto de eventos em todo o mundo, especialmente quando falamos de grandes eventos. As estimativas, entretanto, vêm se refinando cada vez mais, graças à combinação de dados trazidos de outras áreas, como o setor financeiro e as telecomunicações.”

Números inflados e pouca estratégia: o desafio de medir o impacto dos eventos no Brasil
“Estamos em um universo de mentiras criadas lá atrás e ampliadas ano a ano para satisfazer o ego de prefeitos e secretários”, alerta Mariana Aldrigui (Foto: Éric Ribeiro/M&E)

Esse avanço não significa uniformidade. Cada destino ainda mede do seu jeito, o que dificulta qualquer comparação mais séria entre cidades. “Para fins de comparação, é importante que as metodologias sejam replicáveis, razão pela qual sempre há a demanda da descrição da metodologia. Muitos países contratam empresas especializadas para elaboração destas projeções ou medições, mas características locais precisam ser levadas em consideração, como as formas de pagamento mais utilizadas pelos participantes, volume de patrocínio, entre outros pontos. No Brasil, entretanto, cada prefeitura usa parâmetros próprios para divulgar os resultados de seus eventos, e raramente são transparentes em termos de metodologia.”

Eventos: Quando o número vira narrativa

Sem uma base comum, o risco de distorção cresce. E essa lógica contamina a percepção do impacto real. “Não se pode iniciar os cálculos a partir de estimativas equivocadas de eventos anteriores e a pressão política para gerar números maiores sempre. Estamos em um universo de mentiras criadas lá atrás e ampliadas ano a ano para satisfazer o ego de prefeitos e secretários”, afirma Mariana.

“O fato de não haver uma cobrança mais sistemática da imprensa e da sociedade por coerência nos números faz com que qualquer informação valha. São números jogados ao vento, sem resultados concretos e perceptíveis pelo cidadão comum”, pontua.

O esforço para criar uma régua comum

Se o poder público ainda patina, o setor privado tenta organizar essa conta com mais métodos. É o que aponta Doreni Caramori Júnior, presidente da Abrape, Associação Brasileira dos Promotores de Eventos.

“Atualmente, o que conseguimos medir com precisão são os indicadores de emprego formal, como estoque de vagas e saldos de contratações, além do número de empresas ativas. Essas informações vêm de bases oficiais como o Novo CAGED, a RAIS e dados da Receita Federal.”

Quando o assunto é faturamento, o caminho ainda passa por projeções. “Por mensurar o volume de consumo e a movimentação financeira total (faturamento) do setor, a Abrape utiliza modelos que cruzam o peso do item “Recreação” no IPCA com a massa de rendimento real da população, calculada pela PNAD Contínua do IBGE, permitindo projetar o impacto financeiro das atividades de lazer e entretenimento na economia.”

Eventos
“Emprego a gente mede bem, faturamento ainda é projeção”, resume Doreni Caramori Júnior

Doreni reconhece a fragmentação histórica, mas vê um movimento de mudança. “Historicamente, o Brasil apresentava uma grande fragmentação metodológica, com cada cidade ou evento utilizando critérios isolados e variados, como taxa de ocupação hoteleira ou fluxo de turistas, para medir o sucesso de suas iniciativas. No entanto, a Abrape tem liderado um movimento para unificar essa régua por meio da classificação por CNAEs, definindo o que é o core business do setor e as atividades que formam o seu hub.”

Olhando todas as pontas, a conclusão é que a discussão sobre eventos no Brasil já não é mais sobre relevância, isso está resolvido há tempos. A pergunta agora é outra, bem mais incômoda e urgente: quanto dessa potência a gente realmente entende e quanto ainda está sendo contado no escuro? Porque sem medir direito, o risco é seguir celebrando números grandes enquanto as decisões continuam pequenas.