Filmes que têm o condão de misturar seus protagonistas ao próprio enredo ascendem de pronto à categoria a um só tempo etérea e também bastante sólida das tramas não necessariamente memoráveis, mas que imprimem sua marca. “Rota de Fuga 2: Hades” oscila em níveis de tédio entre admissíveis e quase torturantes, avança para construções dramáticas que envolvem o público com seu caos cheio de método, investe pesado, como não poderia ser de outra forma, em sequências que sobrevalorizam a violência em cenas de pancadaria feitas do muito que já foi exibido à farta em produções congêneres e, em meio a tamanha balbúrdia, o diretor Steven C. Miller trata de fazer sobressaírem os detalhes que julga convenientes a fim de dar personalidade a seu trabalho. É assim, mascarando vigorosas imperfeições com aspectos encarados com mais condescendência, que Miller ganha território mesmo no superpovoado nicho dos enredos de ação — que nunca são só isso.
Reação em cadeia
As forças de segurança polícia foram idealizadas como a ferramenta de que o Estado lançaria mão a fim de conter a natureza rebelde do homem, mas, como todos sabemos desde sempre, elas falham. Nessa conjuntura de falência das instituições e deliberada promiscuidade entre público e privado destacam-se figuras a exemplo de Ray Breslin, um ex-interno da Penitenciária Federal de Bendwater, Colorado, que conhece o submundo como poucos. Breslin usou a experiência junto a bandidos de todos os coturnos, ladrões, mafiosos, políticos corruptos, policiais gananciosos para abrir uma empresa de mercenários que encaram qualquer guerra, justa ou não, mediante remuneração generosa. O roteiro de Miles Chapman vai pontuando a narrativa com elementos que estabelecem as semelhanças entre esses personagens, e assim presta-se a encaminhar a história para onde ela acontece. Quanto mais a narrativa avança, mais se nota que o anti-herói de Sylvester Stallone deveras tem algo de dúbio, esboçado em “Rota de Fuga” (2013), levado à tela por Mikael Håfström. Stallone, como de hábito, é o próprio filme.
