Quando as estruturas morais parecem fadadas à ruína mais estrondosa, a família apresenta-se como uma das únicas forças capazes de empreender alguma mudança. Regida pela lógica da economia de mercado e pela idolatria da imagem, a sociedade pós-moderna, a sociedade do cansaço, reduz o valor de tudo e de todos a cifras e aparência. O amor, porém, não esmorece, afirmando-se como a recusa à legitimação dos relacionamentos mercadológicos, dos quais os indivíduos precisam sempre tirar uma vantagem qualquer. O mais humano dos sentimentos está sempre a dormitar num meandro do espírito, e implora pela chance de ser venturoso, não trágico. A despeito dos fenômenos sobrenaturais, em “No Fundo do Bosque” Stefano Lodovichi alcança o público mesmo é ao falar de assuntos deste plano, os que deixam qualquer demônio no chinelo. Percalços do casamento, as eternas preocupações com os filhos e culpa submetem-se ao escrutínio metódico, original e revelador de Lodovichi e dos corroteiristas Isabella Aguilar e Davide Orsini, resultando num conto de lirismo e torpeza.
Monstros imaginários e reais
Todas as vezes em que uma criança sofre, a humanidade morre um pouco. Ainda na infância, o mundo se nos revela um lugar surpreendentemente hostil, onde somos forçados a medir cada palavra e estudar todo gesto, sob pena de arcar com consequências pesadas para nossos ombros estreitos, onde flutua uma cabecinha deveras sonhadora. Lodovichi descobre uma maneira de dar ao filme a natureza de uma crônica, que tenta explicar o porquê de certas lendas e tradições — o que, na verdade, será sempre impossível. Pode não parecer, mas o festival de Krampus num vilarejo nas Dolomitas, nos Alpes italianos, está por trás de muito do que acontece de importante na história, e os rudes aldeães em figurinos peludos e ostentando chifres que perambulam embriagados pela cidade são só arruaceiros cuja vida ia muito bem até a invasão turística dos verdadeiros bárbaros. Linda e Manuel Conci, os pais de Tommaso, quatro anos, estão nesse último grupo, e se escandalizam um pouco com a grosseria dos locais, ainda que eles mesmos bebam além da conta. É nessa circunstância que o garoto some, para só reaparecer cinco anos mais tarde, trazendo a dúvida em que o diretor ancora a narrativa. Os personagens de Filippo Nigro e Camilla Filippi pagam pela prepotência que deriva em racismo, e o castigo é pesado. Teo Achille Caprio confere a ambiguidade necessária a Tommi aos nove anos, e então o terror aflora.
