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Um best-seller sueco virou no Prime Video um filme elegante, cruel e difícil de esquecer

Um best-seller sueco virou no Prime Video um filme elegante, cruel e difícil de esquecer

Casamentos passam por situações que ou corroboram a estreiteza dos vínculos e os bons sentimentos que nutrem uns pelos outros, ou fazem com que a relação, por mais vigorosa que pareça, degringole de vez, porque torpedeada por toda sorte de ameaças e episódios que mesclam o ridículo e o grave. Tinhoso, o universo parece estar sempre ávido a comunicar alguma coisa muito séria para os casais, apostando que sejam todos maduros o bastante para compreender sua mensagem. Isso nem sempre acontece, claro — na verdade, quando acontece assemelha-se a uma genuína revelação —, mas há momentos na vida em que pouco importa o que queiramos: adultos temos de refrear nosso destempero. “Queime Todas Minhas Cartas” é um enredo que começa lá em cima, mas aos poucos Björn Runge vai colocando cada argumento no seu lugar devido, fazendo mil insinuações, até desvendar os segredos de uma relação tão longeva quanto marcada pela infelicidade.

Gritos e sussurros

Desejamos o que nos parece distante porque sabemos que as chances de o alcançar são mínimas. Observando esse mecanismo, sufocamos aspirações assustadoramente próximas porque elas não se nos mostram instigantes o suficiente, não nos encantam, não conseguem, enfim, cavar um espaço num cérebro tomado por pensamentos os mais absurdos, rendido pela tirania da ilusão e subjugado pelo desvario mais eloquente. Ninguém está a salvo de tornar-se um criado eterno das próprias vontades, principalmente nos momentos em que tudo quanto resta é só a felicidade que já não existe mais, morta. Assim vivem Sven Stolpe (1905-1996), a esposa, Karin (1907-2003), e Alex Schulman, o neto deles, num labirinto de farsas e autoenganos. O diretor Björn Runge e a roteirista Veronica Zacco iluminam os meandros mais escuros da convivência de Sven e Karin, entre 1930 e 1988, carregando nas tintas de um refinado melodrama acerca de fidelidade e adultério, ilusão e desalento, e o vigor sobre-humano com que isso resiste ao passar dos anos.

Palavras que o tempo não amarela

Zacco adapta o best-seller homônimo publicado por Schulman em 2018 mirando supostas coincidências entre os infortúnios de Sven e Karin e Alex e sua esposa, Amanda, uma trapaça que o destino preparou aos quatro seis décadas antes. Runge costura flashbacks ao leitor da narrativa, tornando palpável a agonia de Karin, uma mulher de espírito independente que, também por essa razão, amarga a tirania de um escritor incensado que nunca enxerga como marido. As tais cartas do título são para o amante, Olof Lagercrantz (1911-2002), outro escritor, e Alex, um garoto de doze anos, as descobre no fundo de uma caixa, trazendo de volta à superfície um turbilhão de remorso, ciúme, inveja, arrogância e palavras velhas, mas que não perderam a força. De uma forma orgânica, o diretor junta os dois momentos, mas também é habilidoso quando eles precisam aparecer cada qual com uma ênfase própria, o que permite a Sten Ljunggren e Marika Lindström incluir uma medida extra de horror e violência à composição de Sven e Karin iniciada por Bill Skarsgård e Asta Kamma August. “Queime Todas Minhas Cartas” é um filme de combustão lenta, mas que dá num incêndio medonho, muito semelhante aos amores que insistem em não morrer e apodrecem, num espetáculo grotesco.



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