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No Prime Video, Ross Lynch surpreende ao interpretar um dos criminosos mais infames da história real

No Prime Video, Ross Lynch surpreende ao interpretar um dos criminosos mais infames da história real

Alfred Hitchcock (1899-1980) desbravou um filão inesgotável com “Psicose” (1960). A obra máxima do britânico parece que deu o sopro que faltava à inspiração represada de cineastas ao redor do mundo, e desde então, histórias sobre esses homens e mulheres cruéis — mas também vítimas dos abusos e crimes que replicaram, muitos com a vontade inconsciente de serem pegos, para, enfim, terem a chance de serem ouvidos — sobrepuseram-se umas às outras, sempre com um olhar no mínimo perturbador acerca dessas figuras. Se começamos a nos demorar na consideração dos motivos que levaram cada um a agir como feras, sem poder controlar o próprio instinto, apenas dando vazão a seus impulsos bestiais e tornando-se a pouco e pouco um escravo deles, nutriremos por essas pessoas a empatia que elas nunca foram capazes de manifestar por ninguém, nem por si mesmas. Esse é o verdadeiro horror em produções como “O Despertar de um Assassino”, relato quase romântico da jornada de mil autodescobertas de Jeffrey Lionel Dahmer (1960-1994), e “autodescobertas” para alguém feito ele pode significar muita coisa.

Anonimato e fama

A juventude de Dahmer passou longe do entra e sai de psicólogos e psiquiatras, todos unânimes no diagnóstico de que alguma coisa está fora da ordem mais próxima da vida como ela é. O diretor Marc Meyers e o corroteirista John Backderf enfronham-se sem censura de qualquer natureza num dos casos mais abjetos da longa história criminal dos Estados Unidos, abusando de cenas com sexo e violência explícita, a fim de tentar entender o que teria levado um homem branco a seduzir, matar e ingerir a carne dos cadáveres dos dezessete rapazes pretos e asiáticos que trucidava sem jamais ser incomodado pela polícia. Backderf, a propósito, vem a ser, Derf, um dos raros amigos de Dahmer no ensino médio em Milwaukee, Wisconsin, norte dos Estados Unidos, e nem mesmo ele conheceu cada uma das diversas facetas do maníaco. Dahmer é pintado como um garoto instável, estranho, até repulsivo por causa do gosto por taxidermia, herdado do pai, o químico Lionel, mas não de todo pérfido ou malévolo, o que se verifica por sua amizade com Derf. O ano de 1978 marca a primeira grande ruptura, e não por acaso também é quando Dahmer faz sua primeira vítima, depois da separação de Lionel e Joyce, a mãe que sai quase às escondidas, soltando uma ou outra palavra de consolo ao filho entre e uma outra patada. A conduta predatória do assassino vai de pouco mais que um fetiche simbólico para uma missão, um autossacrifício. Em 22 de julho de 1991, Tracy Edwards, o homem que escapa do apartamento de Dahmer, registra um boletim de ocorrência. Era o último lance de um ciclo de treze anos de homicídios e vilipêndio de cadáveres.

Caminhos opostos

Nada disso acontece em “O Despertar de um Assassino”. O filme é basicamente a predição da carreira de barbáries de Dahmer, ilustrada pelas cenas até meio tocantes do matador e seu único amigo, seu único afeto, seu único vínculo com a humanidade. O registro da amizade entre Dahmer e Derf é o que justifica o longa, a ponto de Ross Lynch e Alex Wolff fazerem a audiência esquecer a índole diabólica do facínora. Jeffrey Dahmer foi assassinado por Christopher Scarver, um detento afro-americano, na academia da cadeia. Scarver cumpria prisão perpétua pela morte de Steve Lohman desde 1992, quando, na manhã de 28 de novembro de 1994, matou Dahmer e atacou Jesse Anderson (1957-1994) a golpes de haltere. Anderson morreu dois dias depois. Esses novos assassinatos somaram mais duas penas capitais à ficha de Scarver, reforçando a máxima hobbesiana sobre o caráter animalesco de nossa espécie. Talvez nem o babilônico Código de Hamurabi nos detenha.



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