Paolo Sorrentino reúne Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz e Paul Dano em “A Juventude”, drama de 2015 ambientado num hotel-spa de luxo aos pés dos Alpes suíços. Fred Ballinger, maestro e compositor aposentado, escolheu o retiro para caminhar, fazer tratamentos e observar o tempo passar, como se a paisagem pudesse isolá-lo do que deixou para trás. Mick Boyle, cineasta da mesma geração e amigo de longa data, ocupa o mesmo lugar de modo oposto. Cercado por jovens roteiristas, tenta concluir o filme que imagina ser seu último grande trabalho.
A diferença entre os dois aparece cedo e sem sublinhado. Fred evita convites para voltar aos palcos e responde com evasivas ao que lhe pedem; Mick continua trabalhando como se o trabalho ainda pudesse adiar alguma conta. O hotel organiza esse contraste com piscina, massagens, roupões, terraços e corredores, numa rotina de descanso que nunca chega a produzir sossego. O luxo ali não acolhe ninguém.
Hotel e impasse
A neutralidade do retiro acaba quando um emissário da Rainha aparece no resort para pedir que Fred rege sua obra mais célebre numa celebração real. O convite não soa como homenagem, mas como cobrança, porque a recusa do músico tem razões pessoais e reafirma sua decisão de não voltar à carreira. Cada gesto do personagem passa a carregar esse peso. Quando para diante da água, observa a névoa da montanha ou permanece em silêncio enquanto os outros circulam, Fred já não parece apenas um homem cansado, mas alguém empenhado em preservar uma recusa.
Esse impasse ganha corpo com a presença de Lena, filha de Fred, que acompanha o pai na temporada suíça e impede que o personagem se acomode na pose do artista recolhido. A relação entre os dois é atravessada por mágoas antigas, e a crise conjugal que envolve Lena e o filho de Mick aproxima ainda mais as famílias dentro do hotel. Há pouco espaço para delicadeza. Rachel Weisz dá firmeza a esse eixo e puxa Fred para o terreno da responsabilidade afetiva, onde já não basta parecer ferido ou distante e é preciso responder por ausências que ele preferiria deixar sem nome.
Corpos em circulação
Mick enfrenta a idade de outro modo. Continua trabalhando, discutindo cenas e reunindo seus roteiristas no resort para corrigir, rever e perseguir a forma final do filme que ainda quer concluir. Harvey Keitel encontra bem essa mistura de energia e desgaste, e faz de Mick um homem que permanece em movimento porque parar significaria admitir mais do que ele suporta. A amizade entre os dois ganha força justamente aí, no contraste entre um sujeito que tenta sustentar o direito de desaparecer e outro que ainda se agarra ao ofício.
Ao redor deles, Sorrentino espalha figuras e episódios que quebram a monotonia do hotel e dão aspereza ao ambiente. Jimmy Tree surge tentando escapar do papel que o consagrou, e sua aparição vestido e maquiado de Hitler introduz um ridículo desconfortável naquele espaço de luxo e compostura. Em outro momento, a entrada de Miss Universo nua na piscina de borda infinita, diante dos dois velhos, concentra desejo, espanto e humilhação sem precisar de explicação. “A Juventude” às vezes se aproxima da pose, mas Caine e Keitel mantêm o filme preso ao terreno mais duro dos corpos cansados, das recusas repetidas e do trabalho que ainda ocupa a cabeça de Mick. Fred responde ao pedido de retorno sentado de roupão à beira da piscina.

