Max Walker-Silverman escreve e dirige “Depois do Fogo”, novo filme com Josh O’Connor na Netflix, que gira em torno de Dusty, um vaqueiro que perde seu rancho depois de um incêndio de grandes proporções no Colorado. Agora, vivendo em um trailer em um campo da FEMA, uma área administrada pelo governo, ele faz pequenos bicos para tentar juntar dinheiro e reconstruir sua casa.
Divorciado de Ruby (Meghann Fahy), ele foi um pai ausente para Callie-Rose (Lily LaTorre). Não por falta de amor, mas porque sua identidade se misturava ao trabalho no rancho, tornando-se uma atividade que o absorvia completamente. Desamparado, ele busca se reaproximar da filha, porque ela se torna seu único vínculo com o mundo e com a vida.
À espera de ajuda
Dusty vive à espera de que algo aconteça. Faz trabalhos na estrada, mas se sente frustrado. Espera que uma prima com uma fazenda em Montana o chame na época do nascimento do gado ou que o banco lhe conceda um empréstimo para que consiga se reerguer. No entanto, nada disso acontece. O tempo fica em suspenso.
Morando em um espaço de trailers, onde outras famílias afetadas pelo incêndio também vivem, eles tentam se ajudar diante do que sobrou. À noite, se reúnem, cada um levando um prato, e jantam juntos. Compartilham o mesmo sentimento de impotência e ansiedade diante do futuro. Ainda assim, a perda lhe dá mais tempo com Callie-Rose.
Dusty é um homem de poucas palavras. O espectador não o vê reclamando, questionando ou desabafando sobre sua situação. Seus sentimentos são expressos mais pelo silêncio do que pelas palavras e é nesse silêncio que percebemos que, apesar da aproximação com a filha, ele tenta resistir aos encontros. Não porque não queira assumir a responsabilidade ou passar tempo com ela, ou porque não a ame. Dusty se sente fracassado e envergonhado por ter perdido tudo e por não poder mais ser o provedor. Encarar Callie e até mesmo Ruby é um desafio emocional.
É nítido que Dusty é um homem honesto, trabalhador e dedicado. Sua vida inteira se construiu em torno do trabalho no rancho, que pertence à sua família há gerações. Ele visita a terra queimada repetidamente, recordando o que cada espaço ocupava: a casa construída pelos bisavós, o estábulo… agora tudo é um vazio coberto por cinzas.
Vazio institucional
Uma outra camada explorada com sutileza por Max Walker-Silverman é o vazio institucional. O governo aparece em dois momentos: primeiro, ao ceder os espaços dos trailers; depois, ao pedir a retirada deles, como se o problema daquelas pessoas já tivesse sido resolvido, mas não foi. Sem qualquer tipo de recurso ou auxílio efetivo, Dusty recorre ao banco em busca de um empréstimo, mas é negado, já que sua terra deverá permanecer improdutiva por muito tempo. O gerente lhe entrega diversos folhetos de programas assistenciais e sugere que ele se inscreva em todos, na esperança de que algum funcione. Nenhum funciona. Ou seja, o governo cria aparatos de auxílio que existem mais no papel do que na prática. Na realidade, ele é ausente. O governo finge estar no controle da situação, mas não contribui para a solução.
O filme não se resolve. A história de Dusty permanece sem desfecho, porque seu processo é mais lento do que se espera. Ainda assim, ele continua tentando se reerguer, desta vez, buscando manter Callie-Rose dentro de sua vida.

