Produzida pelos irmãos Matt e Ross Duffer, de “Stranger Things”, que influenciaram narrativamente e esteticamente na construção da série, o novo terror da Netflix, “Algo Horrível Vai Acontecer”, criado por Hailey Z. Boston, gira em torno de uma viagem de casamento para desenvolver uma atmosfera fatalista. A história acompanha Rachel (Camila Morrone) e Nicky (Adam DiMarco), um casal a caminho da cabana da família dele, onde acontecerá a cerimônia. O primeiro episódio, que se passa na estrada, já dá o tom: há algo de muito ruim esperando para acontecer.
Rachel é uma protagonista deslocada, em constante guerra contra o mundo ao seu redor. Psiquiatra, seus pensamentos mórbidos não são apenas traços de personalidade, mas sintomas de uma percepção própria da realidade. O casamento é uma concessão. Nicky, por outro lado, encarna o oposto: romântico, previsível, moldado por uma família que valoriza tradição. Entre os dois, o afeto é real, mas é atravessado por uma dúvida que é a principal questão da série: eles foram feitos um para o outro?
Avisos
O episódio da estrada, com o bebê abandonado dentro de um carro, é um simbolismo: a vida deixada à própria sorte, que antecipa o que virá. Enquanto Nicky fica para vigiar a criança, Rachel é empurrada para a ação ao entrar no bar de beira de estrada para pedir ajuda. É ali que a série dá início ao jogo: um homem que a persegue não é apenas uma ameaça física, mas um mensageiro, cuja pergunta enigmática sobre o casamento é um prenúncio.
A partir da chegada à cabana, o terror abandona qualquer possibilidade de ser apenas circunstancial. A mise-en-scène passa a trabalhar contra o espectador: câmeras que deslizam pelos cantos, enquadramentos que sugerem vigilância constante, uma sensação de que Rachel nunca está realmente sozinha, mesmo quando está. Tudo isso não é apenas para criar medo, mas para instaurar uma paranoia silenciosa, onde o espaço doméstico, tradicionalmente associado à segurança, se torna um território hostil, uma influência do terror psicológico de Ari Aster e Roman Polanski.
A família de Nicky intensifica esse desconforto. Não há personagens caricatos. A série constrói algo mais insidioso. A frieza, os silêncios, os olhares prolongados: tudo contribui para a sensação de que Rachel está sendo avaliada, medida, talvez até preparada para algo. Depois de ter o vestido roubado e de descobrir uma cova no quintal, ela passa a ruminar a hipótese de um ritual macabro antes do casamento, como se fosse a única explicação possível para aquele ambiente. No entanto, a reviravolta envolvendo a presença do pai de Rachel desloca o eixo da narrativa.
As referências ao folclore germânico, especialmente às ideias de maldições hereditárias é uma metáfora estrutural. A série parece interessada em discutir até que ponto os vínculos afetivos são, na verdade, repetições, padrões que atravessam gerações disfarçados de escolha individual. O casamento, nesse contexto, deixa de ser um rito de união e passa a ser uma armadilha.
Ao longo dos episódios, segredos familiares e rixas antigas reaparecem tanto como revelações chocantes, como confirmações inevitáveis. A sensação é de que tudo já estava lá desde o início encoberto por uma camada fina de normalidade. E é justamente nessa camada que a série costura sua crítica: muitos relacionamentos não se sustentam por afeto, mas por expectativa, conveniência e pressão social.
Rachel passa, então, a se enxergar como uma figura problemática, obscura e que atrai o mal, mas que tenta se encaixar em um padrão de normalidade ao se casar com alguém tão previsível e entediante como Nicky. Tanto visualmente quanto a ideia possuem forte influência de Stephen King, especialmente em sua “Carrie, a Estranha“.
A pergunta central da série se repete várias vezes: Nicky é realmente a pessoa certa para Rachel? Se não for, há uma maldição prevista para acontecer, que embora tenha caráter material também ganha uma dimensão simbólica. Porque, no fundo, o que “Algo Horrível Vai Acontecer” é sobre o fato de que escolher errado não é apenas um erro, é um processo de esvaziamento. A violência, o sangue e a morte funcionam como materializações de algo mais silencioso: a perda gradual de si mesmo.

