“A Virgem da Pedreira” é um filme argentino de Laura Casabé, baseado em dois contos de Mariana Enriquez, que foram condensados e transformados em uma adaptação para o cinema com a colaboração de Benjamín Naishtat. Com uma atmosfera de tensão crescente, o enredo acompanha Natalia (Dolores Oliverio), uma adolescente que vive em um bairro residencial de baixa renda com a avó, Rita. A mulher também abriga um menino sobre o qual pouco sabemos a princípio, mas que, aos poucos, o filme revela ter sido vítima de violência.
Natalia, Josefina (Isabel Bracamonte) e Mariela (Candela Flores) são amigas e compartilham uma paixão platônica pelo vizinho Diego (Agustín Sosa), com quem saem ocasionalmente. No entanto, Natalia parece nutrir um sentimento mais profundo, e cada vez mais obsessivo, pelo rapaz, tornando-se incapaz de lidar com qualquer possibilidade de rejeição.
Prenúncio do mal
Uma das cenas iniciais mais impactantes mostra um mendigo conhecido do bairro surgindo bêbado e sendo brutalmente espancado por um vizinho. A agressão só não termina em tragédia graças à intervenção de Rita, que ordena que o homem pare. A vítima vai embora deixando para trás um carrinho de supermercado cheio de papelões e objetos pessoais, além de uma poça de sangue que, sob o calor do asfalto, apodrece lentamente e atrai mosquitos. É uma imagem que insiste em permanecer.
A fotografia de Diego Tenório ressalta a crueza, o calor, a poeira e a dureza daquele cotidiano por meio de uma paleta amarelada e saturada, criando a sensação constante de um ambiente opressor, quase em decomposição. Natalia observa a poça de sangue e o carrinho abandonado como quem reconhece um presságio. Antes de partir, o homem a encara, e esse olhar parece selar a certeza de que algo ruim está por vir.
Amor que vira ódio
Na tentativa de conquistar Diego, Natalia recorre a uma simpatia usando o próprio sangue menstrual. O plano, no entanto, falha. Durante uma saída para uma boate, ela conhece Silvia (Fernanda Echevarría), amiga que Diego conheceu pela internet e que também demonstra interesse por ele. Para sua frustração, os dois se aproximam rapidamente e acabam assumindo um relacionamento.
Silvia tenta se integrar ao grupo por meio dessa nova dinâmica, mas Natalia mal consegue sustentar a aparência de normalidade. O que começa como ciúme se transforma em algo mais corrosivo: uma mistura de frustração, ressentimento e um ódio silencioso que passa a direcionar suas ações.
Aliança macabra
Natalia e suas amigas, ainda virgens, desejam experiências mais intensas com homens, mas o namoro entre Silvia e Diego se torna um obstáculo impossível de ignorar. Em encontros na pedreira, espaço que carrega uma força simbólica crescente, o grupo se reúne, e o novo casal passa a ser alvo de provocações e tensões. É nesse ambiente que Natalia se transforma: mais segura, mais agressiva, e cada vez mais distante de qualquer limite moral.
Ao se aproximar de forças que parecem sobrenaturais, ela estabelece uma espécie de pacto com as trevas que sela o destino do casal. Sem entrar em detalhes, o filme utiliza o misticismo menos como elemento externo e mais como extensão do interior da protagonista. O que se manifesta ali não é exatamente uma força maligna no sentido tradicional, mas algo que já existia dentro de Natalia, alimentado por um cotidiano marcado por violência, abandono e pela gradual normalização da desumanização.

