Percorrer centenas de quilômetros a pé pode parecer apenas uma aventura turística. Para os brasileiros Mauro e Fabiana Koch, no entanto, caminhar pelo tradicional Caminho de Santiago de Compostela significou muito mais: foi uma experiência de autoconhecimento, reflexão e mudança de perspectiva.
REDAÇÃO DO DIÁRIO – com assessorias
Durante 31 dias, o casal percorreu cerca de 770 quilômetros enquanto vivia um ano sabático. Trabalhando em ritmo reduzido e de forma totalmente on-line, eles trocaram a rotina confortável por trilhas, silêncio e novos encontros ao longo da peregrinação.
A jornada começou em Saint-Jean-Pied-de-Port, pequena cidade no sul da França e considerada um dos principais pontos de partida do chamado Caminho Francês, uma das rotas mais tradicionais até Santiago de Compostela, na Espanha. Ali, os dois retiraram o tradicional passaporte do peregrino, documento que recebe carimbos ao longo do trajeto e também permite acesso aos albergues espalhados pelo caminho.
Logo no início surgiu um dos primeiros desafios: a travessia dos Pirineus, cadeia de montanhas que separa França e Espanha. A partir dali, a rotina passou a ser marcada por caminhadas diárias de aproximadamente 20 a 25 quilômetros, cruzando vilarejos, campos e cidades históricas.

Os impactos físicos apareceram rapidamente. Já no terceiro dia, o desgaste começou a ser sentido com mais intensidade.
“Essa parte tem muitas subidas e descidas e exige bastante do corpo. Você começa a sentir dor em vários lugares diferentes e, na questão mental, é necessária muita persistência”, relata Fabiana.
Apesar do cansaço, a experiência também revelou algo que se tornaria uma das partes mais marcantes da jornada: os encontros com pessoas de diferentes partes do mundo.
Ao longo das semanas, Mauro e Fabiana conheceram peregrinos de diversas nacionalidades e histórias. Entre eles, uma dinamarquesa de 64 anos que decidiu caminhar após se cansar da rotina profissional, um brasileiro que sonhava com a peregrinação havia 18 anos, um jovem casal do México que viajou após o casamento, além de uma brasileira que vive na Espanha há duas décadas e trabalha em um bar recebendo viajantes. Também encontraram um grupo de adolescentes italianos, de 17 e 18 anos, que percorreu o trajeto com a família.

Apesar das trajetórias distintas, todos compartilhavam um objetivo em comum: a busca por algo além da rotina.
“Um casal espanhol nos disse que precisamos de muito pouco para viver. E caminhando você percebe isso na prática, porque quanto menos bagagem carrega, mais leve fica a jornada”, diz Mauro.
Segundo ele, o Caminho de Compostela sempre esteve ligado ao desejo de viajar não apenas como turista, mas como alguém disposto a aprender com novas culturas e perspectivas.
“São muitos quilômetros de caminhada por dia, e no início, essa nova rotina cansa. Mas a partir do momento em que aceitamos que assim serão os próximos dias e paramos de ‘brigar’ com a mente, fica mais fácil. E isso pode valer para outros desafios na vida”, afirma.

Lesão quase interrompe a jornada
No décimo dia de caminhada, a experiência ganhou um novo desafio. Antes mesmo de atingir o auge do desgaste físico, Fabiana sofreu uma lesão no tornozelo que quase obrigou o casal a interromper a peregrinação.
Naquele dia, ela conseguiu caminhar apenas até o 12º quilômetro. Com dor intensa, inchaço e muitas dúvidas, a continuidade da jornada parecia incerta. O casal decidiu parar e descansar em um hotel.
Na manhã seguinte, porém, a situação surpreendeu.
“Meus tornozelos estavam muito inchados, o pé nem dobrava, e mesmo com remédios eu sentia muita dor. Nesse dia ainda começou a chover, ficou frio. Orei muito, porque realmente achei que não ia me recuperar rápido o suficiente para continuar no dia seguinte, já que uma lesão dessa pode levar dias ou semanas para curar. Mas no dia seguinte, apesar de ainda sentir um pouco de dor, acordei muito melhor, foi mágico. Também achamos uma pequena loja que vendia bastões de caminhada, o que de início achamos que não seria necessário, mas foi. Isso ajudou muito”, conta.
Para Fabiana, a peregrinação também representou um exercício de abrir mão do controle e aceitar o inesperado.
“É uma experiência muito significativa, e mesmo que seja feita em grupo, é muito individual. Eu me permiti viver coisas inéditas, como dormir em albergues. Para alguém que gosta de planejamento, foi desafiador. Mas transformador”, afirma.
Chegada marcada por emoção
Após um mês de caminhada, Mauro e Fabiana finalmente chegaram a Santiago de Compostela. O momento foi marcado por emoção e sensação de missão cumprida.
“Comemoramos muito, nos emocionamos. Fazer esse caminho foi uma das coisas mais significativas que já fiz”, finaliza.

