Muitas revistas, jornais e páginas on-line vêm publicando pesquisas acadêmicas para tentar decifrar a juventude contemporânea. Os diagnósticos se repetem: jovens mais isolados, mais receosos de se envolver, com menos interesse por sexo, casamento ou filhos. Não se trata de um fenômeno simples, nem de uma única causa. Há, sim, uma transformação profunda nas relações humanas, e a tecnologia é parte central disso, mas não a única.
A autonomia feminina, por exemplo, reconfigurou estruturas que pareciam imutáveis. A entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho não apenas ampliou possibilidades individuais, como também desmontou antigos modelos familiares. Famílias numerosas, casamentos duradouros a qualquer custo, mulheres financeiramente dependentes: tudo isso deixou de ser regra. Hoje, muitas mulheres não precisam mais permanecer em relações abusivas, sejam elas emocionais ou físicas. O divórcio, nesse sentido, deixa de ser fracasso e passa a ser escolha. Soma-se a isso o alto custo de vida e temos um cenário em que filhos já não são tantos. Quando existem, são poucos.
Mas a tecnologia empurra essa transformação para um outro nível, mais difuso e, talvez, mais inquietante. O medo da exposição se tornou um elemento constante nas interações. Aproximar-se de alguém implica um risco novo: o de ser gravado, fotografado, ter conversas vazadas, virar print ou “exposed”. A intimidade deixou de ser um espaço seguro. Demonstrar afeto, interesse ou vulnerabilidade pode significar, em última instância, tornar-se público. E isso produz um efeito direto: os jovens hesitam. Evitam. Recuam.
Ainda assim, apesar de todas essas mudanças, há algo que permanece estranhamente intacto: a forma desigual como a sociedade encara os relacionamentos para homens e mulheres. Para elas, ainda há um peso simbólico em “não estar com alguém”, quase como uma falha. Para eles, o compromisso segue sendo associado à perda de liberdade, a uma espécie de confinamento emocional. É uma lógica antiga, mas persistente. Às mulheres, a ideia de completude pelo romance. Aos homens, a ideia de que o romance limita.
Essa assimetria não apenas sobrevive: ela se atualiza. E é justamente nesse ponto que o thriller psicológico “Oh, Sumido!” encontra seu terreno.
Dirigido por Sophie Brooks e escrito em parceria com Molly Gordon, que também protagoniza a história, o filme constrói uma sátira ácida sobre como homens e mulheres são moldados, e distorcidos, pelas expectativas afetivas. Gordon interpreta Iris, uma jovem que aceita o convite do ficante Isaac, vivido por Logan Lerman, para passar um fim de semana romântico em uma casa de campo. A princípio, tudo se encaixa na fantasia clássica: clima leve, conexão aparente, intimidade crescente.
Até que, no momento mais vulnerável, na cama, surge a ruptura. Iris acredita que há exclusividade, que o relacionamento caminha para algo mais sério. Isaac, com uma naturalidade constrangedora, desmonta essa expectativa: ele vê a relação como algo casual, continua saindo com outras pessoas e não pretende mudar isso. A diferença de percepção não é apenas um mal-entendido, é o abismo entre duas formas de enxergar o vínculo.
O que poderia ser apenas um término constrangedor toma um rumo radical. Durante o sexo, Isaac está algemado à cama. Iris decide não soltá-lo. O gesto, que começa como impulso emocional, rapidamente se transforma em controle. Ela não quer apenas mantê-lo ali, quer reverter a narrativa, forçar uma mudança, transformar rejeição em reciprocidade.
À medida que a situação se agrava, Iris recorre à amiga Max, interpretada por Geraldine Viswanathan, numa tentativa de racionalizar o que já saiu do controle. O que se segue é uma escalada que oscila entre o absurdo e o perturbador: ideias extremas surgem, incluindo a possibilidade de assassinato, logo substituída por alternativas menos definitivas, mas igualmente delirantes, como “enfeitiçá-lo”. A lógica interna das personagens se mantém coerente justamente por ser emocional, não racional.
Mesmo quando a trama mergulha em território de sequestro e paranoia, o roteiro preserva sua ironia. Há um comentário constante sobre expectativas e manipulação: enquanto muitas mulheres são ensinadas a investir emocionalmente, criando projeções e significados, muitos homens operam na ambiguidade, oferecendo sinais suficientes para parecerem interessados, mas nunca comprometidos. O resultado é um jogo desigual, onde ninguém sai ileso.
“Oh, Sumido!” evita a armadilha de apontar culpados simples. Não há mocinhos nem vilões evidentes. O que existe são personagens levados ao limite por crenças que aprenderam, e nunca questionaram de fato. Quando essas crenças colidem, o que sobra não é amor, mas competição. E, nesse cenário, qualquer gesto pode rapidamente ultrapassar a linha do aceitável.
Filme:
Oh, Sumido!
Diretor:
Sophie Brooks e Molly Gordon
Ano:
2025
Gênero:
Comédia
Avaliação:
8/10
1
1
Fer Kalaoun
★★★★★★★★★★

