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Suspense com Florence Pugh na Netflix transforma perfeição doméstica em puro desconforto

Suspense com Florence Pugh na Netflix transforma perfeição doméstica em puro desconforto

Em “Não Se Preocupe, Querida”, Olivia Wilde dirige Florence Pugh, Harry Styles, Chris Pine e Gemma Chan numa história ambientada em Victory, comunidade experimental erguida no deserto para abrigar os homens do Projeto Vitória e suas famílias. Tudo parece em ordem. Alice e Jack Chambers vivem um casamento de aparência serena, mas essa calma já nasce dividida, porque cada um ocupa um espaço muito bem demarcado desde o início. Todas as manhãs, os maridos saem de carro para um trabalho sigiloso, enquanto as esposas permanecem entre a casa, as compras, os encontros sociais e a espera.

Essa separação organiza a vida inteira em Victory, das casas impecáveis aos jantares coletivos, passando pelas reuniões em que Frank, fundador carismático do lugar, fala como executivo, pregador e mestre de cerimônias ao mesmo tempo. Nada parece fortuito. A repetição das tarefas domésticas, o desfile de carros antigos e o brilho quase agressivo das superfícies montam um cotidiano em que conforto e disciplina aparecem como partes do mesmo pacto. Quando Alice percebe que as mulheres não recebem explicações claras sobre o que os homens fazem fora dali, o bairro deixa de sugerir estabilidade e começa a sugerir confinamento.

Wilde filma essa prosperidade com apuro visual, alinhando linhas retas, salões amplos e um deserto que cerca a comunidade como um limite físico e mental. A paisagem pesa. O vazio ao redor das casas ganha outra densidade quando Alice vê um avião cair e decide sair da rotina para investigar, abandonando o trajeto previsível entre cozinha, varanda e festas noturnas. Ao caminhar para fora do bairro e avançar até o ponto em que já não deveria estar, ela rompe não apenas uma regra prática, mas a própria lógica que sustenta Victory como um lugar de obediência silenciosa.

Alice contra o cerco

Florence Pugh conduz o centro do longa com uma atenção rara ao modo como Alice respira, hesita, se contrai e insiste quando a realidade começa a perder firmeza. O corpo registra antes. As visões desconcertantes se acumulam, Margaret surge como aviso vivo do preço cobrado de quem desafia as regras, e Alice passa a ser tratada como instável por marido, médicos e vizinhos. Quando atravessa o deserto, chega à sede do projeto e encosta na superfície espelhada do edifício, a personagem encontra um ponto concreto para sua suspeita, e o suspense deixa de depender apenas da atmosfera para ganhar matéria, espaço e contato.

Chris Pine ocupa com segurança a posição de anfitrião ameaçador, sempre no centro de festas, jantares e discursos feitos para embalar a obediência com voz mansa e sorriso firme. Ele sorri demais. Nos encontros entre Alice e Frank, quase sempre em ambientes fechados de Victory, o que se impõe não é só a curiosidade em torno do Projeto Vitória, mas a tentativa insistente de empurrá-la de volta para o papel de esposa satisfeita, cercada por vizinhos dóceis e por um marido que prefere o silêncio à pergunta. Harry Styles rende mais quando Jack oscila entre afeto, medo e defesa daquela ordem do que quando precisa sustentar sozinho o encanto doméstico do início, e essa oscilação ajuda a expor as rachaduras do casamento.

“Não Se Preocupe, Querida” por vezes insiste em imagens em preto e branco, dançarinas e sinais de colapso que repetem por outros meios uma inquietação já inscrita na rotina das casas, na saída diária dos homens e na pressão sobre quem pergunta demais. Ainda assim, certas imagens persistem. Wilde acerta ao ligar o luxo de Victory à disciplina das esposas, o carisma de Frank ao sigilo do trabalho masculino e o deserto ao risco de tentar sair dali. No fim, permanecem a rua limpa demais, um copo deixado sobre a mesa e o sol branco batendo no asfalto de Victory.

Filme:
Não Se Preocupe, Querida

Diretor:

Olivia Wilde

Ano:
2022

Gênero:
Drama/Mistério/Thriller

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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