Leigh Whannell dirige Elisabeth Moss, Oliver Jackson-Cohen, Aldis Hodge e Storm Reid em “O Homem Invisível” com uma precisão rara logo na abertura. Cecilia Kass dopa Adrian Griffin, atravessa de madrugada a mansão de vidro onde vivia sob vigilância e, com a ajuda da irmã Emily, consegue fugir para a casa de James Lanier, amigo de infância, onde também mora Sydney. A paz dura muito pouco ali. Quando Tom Griffin aparece para informar a morte de Adrian e a herança milionária deixada sob condições, o que parecia começo de liberdade vira outra forma de cerco, agora mais difícil de provar e mais fácil de tratar como desequilíbrio.
O vazio dentro da casa
A primeira sequência já coloca o corpo de Cecilia em estado de alerta, e o resto do filme não abandona essa condição nem por um instante. A casa de vidro, os corredores largos, as portas abertas e os cantos vazios fazem mais do que compor um cenário bonito, porque tudo parece montado para prolongar a sensação de que alguém continua olhando. O vazio pesa dentro da casa. Whannell sustenta isso sem fazer alarde, insistindo em enquadramentos onde a ameaça talvez esteja presente, talvez não, enquanto um cobertor fora do lugar, uma cadeira mexida ou um simples silêncio comprido passam a carregar um nervosismo físico.
Cecilia não enfrenta apenas uma presença que ronda a cozinha, o quarto e o corredor sem deixar prova clara. Ela também precisa aguentar a corrosão diária da própria palavra, e isso aparece quando o portfólio desaparece durante a entrevista de emprego, quando um e-mail enviado de sua conta destrói a relação com Emily e quando James e Sydney começam a olhar para ela com uma cautela que antes não existia. Cada ataque acerta um ponto vital. O trabalho, a família improvisada, a possibilidade de retomar a vida e até o direito de ser ouvida vão sendo atingidos por gestos pequenos e cruéis, e Elisabeth Moss segura tudo sem buscar grande efeito, deixando a exaustão surgir no corpo rígido, no olhar suspenso e naquele reflexo de encarar um canto vazio antes de terminar uma frase.
Na casa de James, o cotidiano deixa de ser neutro e passa a agir como uma armadilha que conhece os hábitos de Cecilia. No café da manhã, uma faca some do balcão e a chama do fogão aumenta quando ela sai do quadro, como se a cozinha inteira pudesse se mover sem ruído para desmontar sua pouca segurança. Até o fogão parece hostil. Mais tarde, a agressão a Sydney acontece diante dos outros e recai sobre quem já vinha sendo tratada como instável, ampliando o isolamento dentro do único lugar em que Cecilia imaginava encontrar abrigo. O acerto está justamente em prender a violência a esses espaços comuns, porque a perseguição não chega de um castelo distante nem de uma fantasia antiga, mas da sala, da mesa, do quarto e da pia.
Quando nada fica para trás
Adrian ganha força por continuar ocupando a história mesmo quando a notícia oficial garante que ele está morto. Ligado à riqueza, à pesquisa em óptica, à casa monitorada e à suspeita de que tenha usado tecnologia de invisibilidade para forjar a própria morte, ele segue definindo o ritmo de tudo o que cerca Cecilia. Nada fica realmente para trás. O horror se espalha pela entrevista de emprego, pela mesa do café, pela herança anunciada por Tom e pela convivência com James, Sydney e Emily, sempre no ponto exato em que a prova desaparece e a dúvida cresce. É um medo bem material, que sabe onde tocar para bagunçar uma rotina, romper um vínculo e transformar o desespero de uma mulher em espetáculo para os outros.
Por isso, “O Homem Invisível” não depende de reverência ao personagem clássico nem de truques grandiosos para se impor. O centro está na sobrevivência de Cecilia, nos laços que se desgastam dentro da casa de James, na presença de Tom como administrador dessa herança condicionada e no modo como Adrian continua tomando os lugares sem precisar aparecer. Whannell sabe a hora de parar. Em vez de encher a tela, ele deixa que uma porta entreaberta, uma faca fora do balcão, um corredor silencioso e a sensação de ar preso perto do rosto façam o trabalho.
Filme:
O Homem Invisível
Diretor:
Leigh Whannell
Ano:
2020
Gênero:
Drama/Ficção Científica/horror/Mistério
Avaliação:
8/10
1
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Amanda Silva
★★★★★★★★★★

