Durante o Singapore Airshow 2026, em fevereiro, a Embraer apresentou sua estratégia para expandir a presença da família de jatos E2 no Sudeste Asiático, posicionando as aeronaves como solução para rotas de média densidade ainda não atendidas de forma economicamente viável por operadores da região.
Em entrevista ao site Aerotime, Raul Villaron, vice-presidente sênior de Marketing e Vendas e chefe da Ásia-Pacífico do fabricante brasileiro, disse que o foco está em mercados com demanda fragmentada e geografia insular, onde aeronaves de maior capacidade ou turboélices não atendem plenamente às necessidades operacionais.
Países como Indonésia e Filipinas apresentam desafios estruturais à conectividade terrestre devido à sua formação arquipelágica. Nesse contexto, o transporte aéreo torna-se essencial para integração regional.
De acordo com Villaron, os E2 atuam como complemento a aeronaves como o Airbus A320 e o Boeing 737-800, especialmente em rotas entre cidades secundárias e terciárias, onde a demanda não justifica aviões maiores.
Mudança no modelo das low costs
A aviação regional do Sudeste Asiático foi historicamente estruturada por companhias de baixo custo, com frotas concentradas em dois extremos: turboélices para curtas distâncias e jatos narrowbody de alta densidade para rotas principais.
Segundo Villaron, esse modelo começa a enfrentar limitações. “As low cost têm dificuldade de manter o mesmo ritmo de crescimento devido à inflação. A renda disponível caiu, e os passageiros não voam com a mesma frequência”, disse.
Nesse cenário, surge uma lacuna operacional: rotas longas demais para turboélices e com demanda insuficiente para narrowbodies tradicionais. “Existem mercados não atendidos que são longos demais para turboélices e pequenos demais para narrowbodies. Essa é a nossa principal proposta de valor”.
Eficiência operacional
A Embraer sustenta que a família E2 foi projetada para superar a desvantagem histórica de custo por assento em aeronaves menores. O programa incorpora novas asas, sistema fly-by-wire e motores de última geração.
Além do consumo de combustível, Raul Villaron destacou redução em custos indiretos, como taxas aeroportuárias e de navegação, devido ao menor peso da aeronave.
Substituição de turboélices
Outro vetor de crescimento identificado pela fabricante é a substituição de frotas de turboélices envelhecidas. Aeronaves dessa categoria, com capacidade típica entre 70 e 80 passageiros, apresentam limitações de velocidade, conforto e alcance.
Com capacidade de até 146 assentos, os E2 podem praticamente dobrar a oferta em relação a turboélices, diluindo custos fixos por passageiro. Segundo a Embraer, isso pode viabilizar tarifas mais competitivas.
O impacto também se estende à infraestrutura aeroportuária. Em hubs congestionados como os aeroportos internacionais de Manila, nas Filipinas, de Jacarta, na Indonésia, e de Bangcoc, na Tailândia, a substituição de turboélices por jatos mais rápidos pode aumentar a eficiência no uso de slots.
Expansão do turismo
O fabricante também identifica oportunidades no setor turístico, considerado estratégico para a aviação regional. A utilização de aeronaves de menor porte permite abrir rotas para destinos com demanda inicial limitada.
“Os passageiros querem conhecer novos destinos, mas esses mercados não têm a mesma demanda de hubs como Bangcoc ou Phuket. Você precisa de uma aeronave menor para explorá-los”, disse Villaron.
Villaron citou a operação da Scoot, subsidiária de baixo custo da Singapore Airlines, que utiliza os E2 em rotas para destinos como Koh Samui, Fukuoka, Natuna, Malaca e Davao.
Foco em expansão regional
Na Ásia-Pacífico, a presença da Embraer inclui mercados como Japão, Austrália e Singapura. Apesar disso, o Sudeste Asiático ainda é considerado um mercado com baixa penetração para o fabricante.
“É um mercado ainda pouco explorado para nós. Com mais passageiros conhecendo a aeronave, vemos um potencial significativo de crescimento na região”, concluiu Villaron.

