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O filme de Chloé Zhao que tirou Shakespeare do pedestal e ganhou força no Oscar está sob demanda no Prime Video

O filme de Chloé Zhao que tirou Shakespeare do pedestal e ganhou força no Oscar está sob demanda no Prime Video

Em “Hamnet”, Chloé Zhao dirige Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson e Joe Alwyn num drama que desloca William Shakespeare do centro da própria lenda. O foco está em Agnes. Na Inglaterra dos anos 1580, ela divide com Will a criação de três filhos, entre eles os gêmeos Judith e Hamnet, até que uma tragédia atravessa a casa e reorganiza a vida dos que ficam. Zhao parte menos do escritor célebre do que do casamento, da rotina e do peso que as ausências de um marido podem ganhar antes mesmo de qualquer perda maior.

Agnes e a vida doméstica

Agnes surge ligada ao bosque, à terra, aos remédios e a uma percepção do mundo que a aldeia observa com respeito e desconfiança. É desse chão que ela vem. Will aparece antes da fama, ainda como tutor de latim, e o encontro dos dois se apoia num contraste simples, mas firme, entre o homem das palavras e a mulher do corpo, da casa e da natureza. Zhao sustenta essa diferença sem sublinhar demais, porque é Agnes quem organiza a vida doméstica, os partos, os filhos e também o acúmulo das ausências do marido quando ele parte repetidamente para Londres.

Os filhos não entram em “Hamnet” como adorno de felicidade doméstica, mas como o centro concreto da vida em comum daquele casal. O medo chega cedo. O parto dos gêmeos, marcado pela fragilidade inicial de Judith, instala em Agnes uma vigilância permanente, como se a perda já rondasse a casa antes de se impor de vez. Zhao acompanha esse estado nas brincadeiras entre Judith e Hamnet, no olhar da mãe para os filhos no campo e dentro de casa, e no trabalho miúdo que sustenta a rotina sem nenhuma idealização da maternidade.

A casa depois da tragédia

Quando a tragédia atinge a família durante uma ausência de Will, Zhao evita transformar o drama em solenidade vazia. A casa muda de peso. Agnes permanece cercada por tarefas, lembranças, corpos e silêncios, enquanto Will já está tomado pela carreira em Londres e pela distância que essa carreira vinha abrindo antes mesmo do luto. Paul Mescal acerta ao não fazer do personagem uma estátua precoce. Em vez do gênio literário pronto, aparece um homem dividido entre a ascensão pública e a incapacidade de estar onde sua presença era necessária.

Jessie Buckley é quem dá base a “Hamnet”, porque mantém o filme perto do chão quando ele poderia se perder na reverência ao nome Shakespeare. Nada alivia muito. Agnes não surge como simples mãe enlutada nem como musa do escritor, mas como a mulher que segurou o cotidiano, os partos, os filhos e a vida rural enquanto o marido se afastava, e que agora precisa seguir dentro de uma casa alterada pela morte. Quando Zhao volta ao campo, aos cômodos e à rotina interrompida, registra o efeito do luto sobre o trabalho, sobre os objetos e sobre os filhos que seguem ali, ainda exigindo cuidado.

A aproximação entre a morte de Hamnet e a criação posterior de “Hamlet” poderia facilmente virar uma explicação vistosa sobre a origem da peça. Zhao não cai nisso. Em vez de correr para o mito, ela retorna à velha casa, aos gêmeos, ao parto difícil, às partidas para Londres e ao descompasso entre a mulher que ficou no campo e o homem sempre um pouco longe demais. Essa escolha dá firmeza ao filme, porque mantém a dor em escala humana e evita usar a literatura como atalho para engrandecer o sofrimento.

Filme:
Hamnet

Diretor:

Chloé Zhao

Ano:
2025

Gênero:
Biografia/Drama/História/Tragédia

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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