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Se existe um filme obrigatório antes do Oscar, é esta obra-prima com Joel Edgerton na Netflix

Se existe um filme obrigatório antes do Oscar, é esta obra-prima com Joel Edgerton na Netflix

Dirigido por Clint Bentley e estrelado por Joel Edgerton, Felicity Jones, Kerry Condon e William H. Macy, “Sonhos de Trem” acompanha Robert Grainier, trabalhador braçal do começo do século 20 que ajuda a abrir caminho para as ferrovias americanas enquanto tenta sustentar uma vida nas florestas do Noroeste do Pacífico. Órfão desde cedo, ele cresce entre árvores, serras, trilhos e deslocamentos, até conhecer Gladys, casar com ela e formar uma casa já marcada por uma contradição simples, mas dura, o mesmo trabalho que lhe dá um lugar no mundo é o que o arranca desse lugar por longos períodos. Bentley não faz de Robert um pioneiro mítico nem um herói de almanaque. Interessa mais o homem de ombros gastos, mãos pesadas e fala curta, cercado por uma paisagem que parece antiga demais para caber na pressa do país.

Esse acerto aparece logo no modo como Robert é filmado entre árvores derrubadas, clareiras abertas à força e trilhos em construção. A floresta aqui não serve de moldura prestigiosa nem de fantasia de época, mas de matéria bruta, lugar de exaustão, salário, risco e passagem, algo que molda o corpo do personagem e ao mesmo tempo registra a mudança do território. Ele pertence àquele chão, mas também participa da sua transformação, o que dá ao longa um atrito mais interessante do que a solenidade de costume em filmes de fronteira. Quando Bentley coloca Robert pequeno diante da mata e das montanhas, o efeito não é de ilustração elegante, e sim de desproporção, como se a vida privada estivesse sempre atrasada em relação ao tamanho do mundo.

Gladys, a casa e a perda

A relação com Gladys é o que impede “Sonhos de Trem” de virar apenas crônica de trabalho duro. Ela não entra em cena como abstração doméstica nem como prêmio de homem sofrido, mas como a forma concreta de abrigo que Robert encontra em meio a trilhos, viagens e ausência. A casa pesa. Os longos períodos fora e a presença da filha pequena tornam mais aguda a distância entre o trabalhador que ajuda a empurrar a ferrovia adiante e o pai que não consegue permanecer junto de quem ama. Quando a tragédia bate nessa família, Bentley evita o tipo de encenação que costuma pedir reverência automática. O luto entra como entra quase tudo neste filme, sem anúncio, sem música de sublinhado, sem a pretensão de explicar o que não tem conserto.

Essa contenção combina com a estrutura escrita por Bentley e Greg Kwedar. Os cortes e elipses comprimem anos de trabalho, casamento, perda e envelhecimento sem a ansiedade de preencher todos os vazios, e a narração em off de Will Patton ajuda a sustentar essa passagem do tempo sem transformar o filme em leitura ilustrada da novela de Denis Johnson. Robert fala pouco. Faz sentido, então, que a direção prefira a duração de uma caminhada, de um retorno tardio para casa ou de um gesto interrompido à verborragia psicológica que hoje costuma tomar conta de qualquer personagem com sofrimento acumulado. O resultado não é sempre leve. Em alguns momentos, “Sonhos de Trem” flerta com uma gravidade um pouco ensaiada demais para si mesmo.

Trilhos, restos e passagem

Mesmo assim, há imagens que ficam. As botas pregadas numa árvore, os amanheceres e crepúsculos, o fogo, as cabanas e a luz natural sobre os rostos ajudam a dar espessura a uma vida que o roteiro insiste corretamente em não transformar em epopeia exemplar. Robert testemunha violência racial contra um trabalhador chinês, cruza com companheiros como Arn Peeples e mais tarde encontra em Claire Thompson uma nova presença importante, mas nada disso aparece como estação programada de uma trajetória edificante. O filme prefere lidar com restos. Restos de casa, de trabalho, de amor, de país, de madeira cortada, de trilho assentado e de tempo perdido.

Boa parte da força vem de Joel Edgerton, que segura esse acúmulo sem procurar grandeza de vitrine. Ele entende que Robert não precisa posar como síntese da América nem como vítima monumental da história para ter peso na tela. Basta o corpo. “Sonhos de Trem” às vezes se leva a sério além da conta, mas encontra sua medida quando observa esse homem andando entre floresta, ferrovia e ausência sem forçar heroísmo nem sabedoria retrospectiva. Ao fim, o que fica não é uma lição sobre o país ou sobre a vida. Ficam troncos tombados, trilhos cortando a mata e um homem parado diante das árvores.

Filme:
Sonhos de Trem

Diretor:

Clint Bentley

Ano:
2025

Gênero:
Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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