Palavra também sangra, isto aprendi logo cedo, costurando frases como quem, cirurgião desajeitado, cerze carne e pele a produzir estranhas cicatrizes. É engraçado como ainda haja quem faça troça do trabalho da escrita, atazanando o prato mais vazio do que cheio do escrevedor como se as trevas fossem trevo ou atrevimento.
Não são. Nelas habitam o demônio da insalubridade beligerante, do ocaso das ideias, dos perigos atômicos da fissura em branco. No outro reside a sorte. E há ainda o sortudo que compreende o prazer.
Palavra também sangra porque escrever dói. Não se faz porque se quer, pratica-se ora porque a criatividade transborda e precisa ser decantada pré-contemplação por espaço-tempo, ora porque há alguma necessidade exterior a provocar o escritor de forma inescapável.
Uma vez eu prometi a mim mesmo que jamais usaria a lacuna profana da crônica para falar sobre o ofício de escrever uma crônica. Os motivos podem estar na minha janela, afinal: respiro fundo, olho longo. Lá está o belo Stol, com seu cume ainda branco de neve, em contraste com o verdinho da primavera que começa aprontar mais para baixo.
Também cumpre ressaltar que os passarinhos já retornaram depois do inverno a barulhar no quintal. Reconheço alguns deles imaginando serem exatamente os mesmos de volta depois de voarem para terras mais quentes fugindo do gelo daqui da Gorenjska onde vivo. Eles têm asas e, com elas, a opção.
Tenho preparado, devagar, a terra que daqui a algumas semanas receberá sementes e mudas. Ainda não me decidi, entretanto, quantas variedades de tomate irei plantar nem se colocarei batatas-doce em ambos os canteiros ou se apenas em um deles. São dúvidas que atormentam a cabeça deste cronista, pois.
Quando desço as escadas para pegar a quinta dose de café do dia, esses pensamentos me ocupam, principalmente enquanto observo, alto míope, o nada aguardando a máquina esquentar. Lembro-me de que quando eu era criança, idealizava a vida do escritor como a de um senhor sisudo que, inspirado diuturnamente por musas curvilíneas de vestes diáfanas, passava as horas mais bonitas do dia bebericando café e escrevendo, transpondo suas ideias geniais para o papel virgem.
A verdade é menos cinematográfica. A ansiada frase perfeita não existe, mora no onírico campo de acesso fechado aos mortais. Na maior parte do tempo, a única coisa autêntica dessa idealização é o café. O escritor é um esgrimista lutando contra adjetivos manquitolas, advérbios teimosos e vírgulas fugidias.
Mas às vezes troca a espada pelo bisturi. É quando veste o jaleco do inseguro cirurgião recém-formado e faz, com parágrafos de significado duvidoso, suturas frouxas que deixam rebarbas soltas. Solturas.
É quando dói não mais na alma do escritor. Dói no papel. É quando palavra também sangra.

