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Quando um clássico do expressionismo ganha nova vida e vira obra de arte em movimento: no Prime Video

Quando um clássico do expressionismo ganha nova vida e vira obra de arte em movimento: no Prime Video

Algumas histórias de terror não começam com sangue ou gritos, mas com um simples acordo comercial que parece inofensivo demais para levantar suspeitas. Em “Nosferatu”, o diretor Robert Eggers revisita um dos mitos mais duradouros do cinema de horror ao transformar uma negociação imobiliária em uma jornada lenta rumo ao desconhecido.

Thomas Hutter, vivido por Nicholas Hoult, é um jovem corretor que aceita viajar até uma região remota da Transilvânia para concluir a compra de uma propriedade para um cliente misterioso. A missão surge como oportunidade de trabalho e prestígio, mas o destino da viagem logo começa a revelar que aquele contrato envolve muito mais do que paredes antigas e escritura assinada.

Thomas parte deixando para trás sua esposa, Ellen, interpretada por Lily-Rose Depp. No começo, a separação parece apenas um detalhe da rotina de um casal jovem tentando construir estabilidade. Mas enquanto ele avança pelas estradas cada vez mais isoladas da Europa do século XIX, algo estranho começa a acontecer com ela. Ellen passa a ser perturbada por sonhos intensos, quase visões, que carregam uma sensação de presença constante e incômoda. Esses episódios não surgem como sustos fáceis; Eggers os trata como sinais que vão se acumulando, como se alguma força distante estivesse tentando atravessar o espaço entre os dois.

Do outro lado da viagem está o homem que colocou toda essa história em movimento: o Conde Orlok, interpretado por Bill Skarsgård. Desde a primeira menção ao nome dele, o filme constrói uma aura de desconfiança. Aldeões evitam comentar, olhares se desviam, e pequenos avisos surgem pelo caminho. Thomas tenta ignorar esses sinais porque tem um trabalho a cumprir. Ele precisa chegar ao castelo do cliente, revisar os documentos e fechar o negócio. Só que cada quilômetro percorrido parece empurrá-lo para um território onde as regras comuns já não valem da mesma maneira.

Quando finalmente chega ao castelo, a atmosfera muda de vez. Eggers filma o lugar como se fosse um espaço fora do tempo, um ambiente onde o silêncio pesa mais do que qualquer diálogo. O encontro entre Thomas e Orlok não é explosivo; pelo contrário, é contido, quase formal. O conde demonstra interesse obsessivo pela nova propriedade que deseja adquirir na cidade de Hutter. Ele pergunta sobre ruas, vizinhos, distâncias, e trata cada detalhe com uma atenção que vai além de uma simples mudança de endereço.

Bill Skarsgård constrói Orlok como uma presença que domina o ambiente sem precisar levantar a voz. Há algo nele que deixa Thomas permanentemente desconfortável, mesmo quando a conversa gira apenas em torno de contratos e assinaturas. Nicholas Hoult, por sua vez, interpreta o corretor como alguém que tenta manter a racionalidade diante de uma situação cada vez mais estranha. Ele quer terminar o trabalho e voltar para casa, mas percebe que cada conversa com o conde parece esconder alguma intenção maior.

Enquanto isso, Ellen continua enfrentando seus próprios sinais de alerta. Lily-Rose Depp traz para a personagem uma mistura de fragilidade e inquietação que se torna central para o clima do filme. Os sonhos dela não aparecem como simples pesadelos isolados. Eles funcionam quase como uma ligação invisível entre ela e a figura que Thomas encontrou nas montanhas. A sensação é de que algo está se aproximando lentamente, mesmo que ninguém consiga explicar exatamente o quê.

Robert Eggers, conhecido por filmes como “A Bruxa” e “O Farol”, conduz essa história com paciência e atenção ao ambiente. Em vez de apostar apenas em sustos, ele prefere construir tensão a partir da atmosfera. As paisagens, os interiores escuros, o ritmo deliberadamente lento das cenas e o silêncio entre os personagens criam uma sensação constante de espera. Parece que o filme está sempre alguns passos antes de revelar algo, mantendo o público no mesmo estado de suspeita que os próprios personagens.

Esse estilo pode dividir opiniões, mas combina perfeitamente com o tipo de terror que “Nosferatu” propõe. Aqui o medo não surge de forma imediata; ele cresce aos poucos, como uma sombra que vai se estendendo pela história. Cada gesto do Conde Orlok, cada sonho de Ellen e cada tentativa de Thomas de concluir seu trabalho acrescentam uma nova camada de inquietação.

O resultado é uma releitura que respeita a tradição do clássico vampírico, mas ao mesmo tempo assume a identidade estética de Eggers. “Nosferatu” funciona menos como um espetáculo de sustos e mais como um conto gótico sobre obsessão, desejo e influência. O filme acompanha personagens que acreditam estar lidando com situações comuns, enquanto algo muito mais antigo e perigoso se move lentamente ao redor deles.

E é justamente essa sensação de aproximação inevitável que sustenta a experiência. O espectador observa Thomas tentando terminar sua tarefa, Ellen tentando entender seus sonhos e Orlok conduzindo seus planos com calma perturbadora. Aos poucos, a impressão que fica é simples e desconfortável: algumas portas parecem abrir apenas uma vez, e quando alguém decide atravessá-las, talvez já seja tarde demais para voltar atrás.

Filme:
Nosferatu

Diretor:

Robert Eggers

Ano:
2024

Gênero:
Fantasia/horror/Mistério

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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