Talvez o maior talento que alguém possa ter é resignar-se à verdade invencível de que a vida é dura mesmo, mas ainda assim, ou justamente por isso, deve-se enfrentar as dificuldades e, com alguma sorte, vencê-las. Os tantos inesperados da vida quase sempre nos flagram em circunstâncias de fragilidade, cada qual com o seu peso e a sua medida, em que somos acareados com o melhor e o pior de nós mesmos, e é nessa hora em que vemos o quanto de verdade existe nesta pessoa que nos arrosta todos os dias ao espelho, com a qual esbarramos mil vezes por segundo no refúgio de nossos devaneios mais nebulosos. Arj tem experimentado provações que fariam muita gente desistir, contudo ele não se deixa vencer, movido pelo sentimento de que trata “Quando o Céu se Engana”. Releitura original de “A Felicidade Não se Compra” (1946), o clássico de Frank Capra (1897-1991), o filme de Aziz Ansari demonstra que o cinema mantém a vocação de nutrir o sonho tão vesano quanto urgente de igualdade, que se ramifica logo para a busca pelo sucesso. E aí começam os problemas.
Assim na Terra como no Céu
Há de chegar o dia em que anjos descerão à Terra, mandados por Deus, para averiguar como estamos nos saindo antes de termos nosso destino selado. Uma abjeção se nos impõe e nos domina, malgrado nunca deixe de haver gente que jure que tal sensação não passe de assaltos de uma mente perturbada a indivíduos emocionalmente prosaicos como Arj, genuíno representante do lumpesinato deste nosso insano século 21. Ele defende algum aceitando tarefas sob encomenda numa plataforma chamada MissãoCumprida, onde os inscritos montam guarda-roupas, pintam cômodos, removem o entulho de garagens, enfim, fazem tudo o que entedia. Sua rotina é semelhante à de Gabriel, uma criatura celestial cuja única função é livrar motoristas imprudentes que escrevem mensagens e navegam na internet ao volante. A certa altura, resta claro que o roteiro de Ansari quer que reconheçamos a proximidade entre o reles mortal e o anjo, conseguindo um pouco mais. A reedição do Clarence Odbody interpretado por Henry Travers (1874-1965) no filme de Capra é um tipo ambicioso, que não se conforma em passar a eternidade e mais um dia a tocar o ombro de quem testa a sorte enquanto dirige. E mete os pés pelas mãos.
Longe do paraíso
Arj quer ser rico, muito rico e nunca mais perder tempo pensando se tem fundos para alimentar seu bicho de estimação, imaginar-se morando com os sogros ou num quarto sem banheiro. Gabriel realiza seu desejo trocando-o de lugar com Jeff, o milionário que o contrata como assistente pessoal. Pouco depois da festa em que Jeff celebra seus quarenta anos, Arj assume a vida do chefe, mas se recusa a voltar ao sufoco de antes quando Gabriel lhe diz que cometera um erro e que tem de desfazer o feitiço. Ansari interpreta Arj fazendo do personagem exatamente o que o público espera dele, um anti-herói amoral, mas carismático e divertido, inspirando raiva e pena. Keanu Reeves, o centro afetivo da história, quase supera Travers ao reunir doçura, bondade e uma dose generosa de rebeldia, e a química se completa com o cinismo de Seth Rogen, também num papel sob medida. Fábula irreverente acerca da sorte que cada um merece ou não, “Quando o Céu se Engana” fica melhor a cada cutucada, e sem lições de moral. Algo incomum no gênero, aliás.
Filme:
Quando o Céu se Engana
Diretor:
Aziz Ansari
Ano:
2025
Gênero:
Comédia/Fantasia/Romance
Avaliação:
9/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

