O mercado de crédito privado voltou a acender o sinal de alerta com as turbulências financeiras envolvendo duas gigantes brasileiras: a Raízen (RAIZ4) e o Grupo Pão de Açúcar – GPA (PCAR3), que pediram recuperação extrajudicial. Para o investidor que ainda guarda o trauma do início de 2023, com o caso Americanas, o temor de um novo contágio sistêmico é natural.
Segundo um gestor de crédito privado ouvido pelo InfoMoney, o impacto direto da Raízen na cota dos fundos tradicionais não deve ser tão expressivo, mas o perigo está no efeito de contaminação.
Raízen: a armadilha na mão da pessoa física
A grande preocupação no caso da Raízen não é a alocação institucional, mas sim o chamado “efeito de segunda ordem”. A empresa possui uma base gigantesca de investidores pessoas físicas que compraram seus Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e debêntures incentivadas atraídos pela isenção de Imposto de Renda.
Viva do lucro de grandes empresas
“Eventualmente, quando ficar claro para o investidor o preço a que esse ativo está sendo negociado na marcação a mercado, teremos um problema. Se ele pedir saída hoje, provavelmente só vai conseguir vender em torno de 30% a 40% do valor de face”, explica a fonte, que pediu para não ser identificada.
É justamente o susto com esse forte deságio que pode gerar um efeito manada, criando uma aversão generalizada a novas alocações na classe de crédito por parte da pessoa física.
Apesar da turbulência, o setor sucroenergético como um todo pode encontrar uma rota de fuga. Historicamente volátil e alvo de “preconceito” por parte dos fundos tradicionais devido às oscilações no preço da commodity, o setor pode ser beneficiado pelo atual cenário geopolítico.
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Com a elevação do preço do petróleo (impulsionado por conflitos externos), o preço do etanol tende a subir. Usinas com flexibilidade produtiva podem migrar a produção do açúcar para o etanol, melhorando suas métricas financeiras e reduzindo os estoques globais de açúcar, o que ajudaria a sustentar os preços.
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Pão de Açúcar era tragédia anunciada, mas limitada
Já no caso do varejo, o fantasma da Americanas não deve se repetir com o GPA. O primeiro motivo é simples: a exposição da varejista no mercado de capitais é considerada baixa.
A soma do estoque das debêntures do Pão de Açúcar a mercado gira em torno de R$ 1,5 bilhão — um volume pulverizado e muito inferior ao rombo da Americanas e da Light, que juntas somavam mais de R$ 10 bilhões em alocações nos fundos, calcula o gestor.
O segundo motivo é a precificação do risco. “O Pão de Açúcar é um caso problemático há mais tempo. Há cerca de dois anos as debêntures da empresa já estão negociando em um patamar de estresse. Não é novidade para ninguém que a companhia está com dificuldades financeiras”, pontua o gestor. Por ser uma “tragédia anunciada”, o impacto no setor de varejo tende a ser isolado, sem o risco de fechar a torneira de emissões para outras empresas do segmento.
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Falta de colchão nos fundos
Se os eventos isolados de Raízen e GPA não têm força para quebrar a indústria, eles expõem uma ferida estrutural do momento atual: os spreads (prêmios de risco) do mercado estão muito espremidos.
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O gestor alerta que, desde 2023, o mercado vem sofrendo pequenos choques em sequência — problemas com Raízen, Pão de Açúcar, Braskem, CSN, entre outros. “Como o spread de crédito está baixo, não há um colchão de retorno na carteira para absorver essas oscilações maiores de preço. Com isso, os fundos acabam entregando meses de performance ruim, abaixo do CDI na média do mercado”, diz a fonte.
Ainda que um mês abaixo do CDI não represente um colapso estrutural, o incômodo constante gera desgaste. O grande risco monitorado de perto pelos profissionais da Faria Lima não é necessariamente uma onda de calotes, mas sim o cansaço do cotista. Se o investidor passar a enxergar muito risco para pouco prêmio, os resgates podem voltar a dar o tom do mercado.

